
High-Tech Society
RESULTADOS DE PESQUISA
Search this site
105 resultados encontrados com uma busca vazia
- Democracia nos Estados Unidos
A democracia fortalece-se ao renovar periodicamente o ocupante da Presidência ou deve permitir que o eleitor mantenha por mais tempo no poder uma liderança já consolidada? High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Neste novo episódio da série "Democracias pelo Mundo", o High-TechSociety apresenta como os Estados Unidos enfrentaram esse dilema ao limitar constitucionalmente o número de mandatos presidenciais. Em uma democracia, diferentes soluções institucionais podem proteger valores igualmente legítimos. A continuidade de um líder experiente à frente do Poder Executivo pode contribuir para a estabilidade do governo. Por outro lado, a renovação periódica do ocupante da Presidência pode reduzir o risco de concentração política e fortalecer a democracia. À primeira vista, impedir uma nova candidatura de um Presidente já consolidado no cargo pode parecer uma restrição à própria liberdade de escolha do eleitor. Afinal, por que impedir a população de manter no cargo um governante que ela aprova? Por outro lado, permitir reeleições sem limite também suscita uma questão relevante para a democracia. A permanência prolongada de um mesmo líder na Presidência pode ampliar progressivamente sua influência institucional, alterar o equilíbrio entre os Poderes e reduzir a renovação de lideranças. Os Estados Unidos precisaram decidir o que deveria prevalecer: o benefício eventual da permanência de um líder aprovado pela população ou a proteção permanente proporcionada pela renovação periódica da ocupação da Presidência. Uma Constituição sem limite de reeleições A Constituição dos Estados Unidos, aprovada em 1787, estabeleceu mandato presidencial de quatro anos, mas não limitou o número de reeleições. A possibilidade de reeleição permitia preservar a experiência de um presidente considerado competente e, ao mesmo tempo, sua permanência na Presidência por um período indeterminado. Durante aproximadamente 150 anos, esse dilema não foi resolvido por uma regra constitucional, mas por uma tradição política. A tradição iniciada por George Washington Em 1797, George Washington deixou voluntariamente a Presidência após concluir seu segundo mandato, embora não existisse qualquer impedimento jurídico para disputar novamente o cargo. Sua decisão estabeleceu um precedente de grande importância institucional. A partir daquele gesto, passou a ser esperado que, após dois mandatos, o presidente deixasse voluntariamente o cargo, permitindo a renovação da liderança do Poder Executivo. Os presidentes que sucederam George Washington seguiram essa prática, transformando o limite de dois mandatos em um costume respeitado durante cerca de um século e meio. Entretanto, tratava-se apenas de uma tradição política. Nada impedia que um presidente popular voltasse a concorrer para um terceiro ou sucessivos mandatos, deixando ao eleitorado a decisão sobre sua permanência na Presidência. O fato que levou à mudança Essa possibilidade de reeleições sucessivas, até então apenas potencial, concretizou-se com Franklin D. Roosevelt. Eleito em 1932 e reeleito em 1936, Roosevelt voltou a disputar a Presidência em 1940, conquistando um terceiro mandato. Em 1944 foi eleito pela quarta vez, tornando-se o único presidente da história norte-americana a superar o limite tradicional de dois mandatos. Sua permanência ocorreu em circunstâncias excepcionais. Os Estados Unidos enfrentavam os efeitos da Grande Depressão e, posteriormente, participavam da Segunda Guerra Mundial. Para muitos eleitores, a continuidade da liderança presidencial representava estabilidade em um período de grande incerteza. A experiência, entretanto, produziu uma reflexão institucional mais ampla. Se uma tradição respeitada durante aproximadamente 150 anos podia ser superada em circunstâncias extraordinárias, deveria a democracia continuar dependendo apenas desse costume? Pouco depois da morte de Roosevelt, em 1945, o Congresso iniciou o processo de reforma constitucional. Em 1947 aprovou a proposta da 22ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos, ratificada pelos Estados em 1951. Da tradição à Constituição A 22ª Emenda à Constituição dos Estados Unidos estabeleceu que nenhuma pessoa pode ser eleita Presidente mais de duas vezes. Assim, o limite aplica-se tanto às reeleições sucessivas quanto à possibilidade de retornar ao cargo após um intervalo. A norma também disciplina as hipóteses de sucessão presidencial. O Vice-Presidente ou qualquer outra pessoa da linha sucessória que assuma a Presidência e exerça mais de dois anos do mandato restante poderá ser eleito apenas uma vez. Em contrapartida, se exercer menos de dois anos desse mandato, poderá disputar duas eleições presidenciais. Assim, em situações excepcionais de sucessão, uma mesma pessoa poderá permanecer na Presidência por um período máximo próximo de dez anos, embora jamais possa ser eleita três vezes. A mudança produziu um efeito institucional importante. Até então, a renovação periódica do ocupante da Presidência dependia da decisão voluntária do presidente de seguir o precedente criado por George Washington. A partir da 22ª Emenda, passou a constituir uma obrigação constitucional aplicável a qualquer pessoa, independentemente de sua popularidade, influência política ou aprovação junto ao eleitorado. O que a limitação procura proteger? A limitação de mandatos não foi criada para avaliar se determinado presidente governava bem ou mal. Sua lógica é preventiva. Mesmo uma liderança amplamente aprovada precisa deixar o cargo após determinado período. A democracia não deve depender da permanência prolongada de uma pessoa no poder, nem pressupor que somente ela seja capaz de conduzir o país. A limitação dos mandatos também reforça uma ideia central das democracias constitucionais: a Presidência é uma instituição do Estado, exercida temporariamente em nome da coletividade, e não um patrimônio pessoal de quem ocupa o cargo. A renovação periódica do ocupante da Presidência contribui para preservar essa distinção. Ao transformar um costume político em regra constitucional, os Estados Unidos procuraram assegurar que a renovação periódica do ocupante da Presidência deixasse de depender da vontade pessoal dos governantes e passasse a integrar permanentemente a estrutura institucional da democracia. O dilema entre continuidade e renovação democrática A solução norte-americana não elimina o dilema. Ao impedir uma terceira eleição, a Constituição também retira do eleitor a possibilidade de manter no cargo um presidente considerado competente. Em momentos de crise, o país pode perder um líder experiente justamente quando parte da população desejaria preservar a continuidade do governo. Por essa razão, a limitação de mandatos não representa uma escolha entre uma solução absolutamente correta e outra necessariamente equivocada. Representa a definição de qual risco democrático merece maior proteção. Os Estados Unidos concluíram que os benefícios ocasionais da permanência de um líder amplamente aprovado pela população não superavam a proteção institucional oferecida pela renovação periódica do ocupante da Presidência. High-TechSociety - Análise A experiência norte-americana demonstra que democracias consolidadas procuram reduzir sua dependência das qualidades individuais de seus governantes. Durante aproximadamente 150 anos, a tradição inaugurada por George Washington mostrou-se suficiente para preservar a renovação periódica do ocupante da Presidência. A eleição de Franklin D. Roosevelt para quatro mandatos revelou, entretanto, que circunstâncias excepcionais poderiam superar esse costume. Os Estados Unidos decidiram responder institucionalmente a esse desafio. Em vez de confiar exclusivamente na autocontenção dos futuros presidentes, transformaram a renovação periódica em uma garantia constitucional. Essa decisão não parte do pressuposto de que todo governante buscará prolongar indevidamente sua permanência no poder. Parte de um princípio mais amplo: instituições democráticas não devem depender da virtude pessoal dos governantes para preservar a renovação periódica do ocupante da Presidência. Ao limitar constitucionalmente os mandatos presidenciais, os Estados Unidos fizeram uma escolha institucional clara. Entre o benefício eventual da continuidade de um líder amplamente aprovado pela população e a proteção permanente proporcionada pela renovação periódica do ocupante da Presidência, atribuíram maior valor a essa renovação como mecanismo permanente de proteção à democracia. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Fontes: CONSTITUTION ANNOTATED. Twenty-Second Amendment – Historical Background. Library of Congress. CONSTITUTION ANNOTATED. Twenty-Second Amendment. NATIONAL ARCHIVES UNITED STATES CAPITOL VISITOR CENTER. Joint Resolution Proposing the Twenty-Second Amendment. THE AVALON PROJECT – Yale Law School. The Federalist No. 72 (Alexander Hamilton). TEACHING AMERICAN HISTORY. House Debate on the Twenty-Second Amendment. HISTORY.COMWhy Does the U.S. Have Presidential Term Limits? PBS NEWSHOUR. Why does the U.S. have presidential term limits? Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia nos Estados Unidos: A democracia fortalece-se ao renovar periodicamente o ocupante da Presidência ou deve permitir que o eleitor mantenha por mais tempo no poder uma liderança já consolidada? High-Tech Society, 11 jul. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/democracia-nos-estados-unidos
- Democracia no México
A renovação dos governantes é suficiente quando o mesmo partido permanece no poder durante décadas? High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Uma série do High-TechSociety A série "Democracias pelo Mundo" analisa como diferentes democracias procuram desenvolver mecanismos destinados a preservar o equilíbrio do sistema democrático diante de diversos desafios. Além de criar as condições necessárias para que o povo escolha seus governantes, cada país desenvolve, entre outros mecanismos, instrumentos destinados a limitar a concentração do poder, preservar a igualdade na disputa política e impedir que pessoas ou grupos se confundam com o próprio Estado. No artigo anterior, High-TechSociety apresentou a decisão dos Estados Unidos de limitar constitucionalmente o número de vezes que uma mesma pessoa pode ser eleita Presidente. A experiência norte-americana procurou assegurar a renovação periódica do ocupante da Presidência. Mas essa solução resolve completamente o problema da concentração prolongada do poder? A experiência mexicana demonstra que não. A proibição da reeleição presidencial eliminou a permanência prolongada de uma mesma pessoa na Presidência, mas não impediu que a concentração de poder se manifestasse por outro caminho. Durante aproximadamente 71 anos, o México substituiu sucessivamente seus Presidentes, proibiu qualquer reeleição presidencial e, ainda assim, um mesmo partido permaneceu no comando do governo federal. Surge, então, uma pergunta inevitável: Se a renovação periódica da pessoa que ocupa a Presidência não impede, por si só, a concentração prolongada do poder, o que mais seria necessário para preservar a alternância democrática? O caso do México conduz essa reflexão a um novo patamar. A proibição da reeleição presidencial No México, o Presidente não pode ser reeleito. Exerce um único mandato de seis anos e, depois de ocupá-lo, não pode voltar ao cargo. A proibição alcança inclusive quem tenha exercido a Presidência como interino ou substituto, consolidando-se como uma das características mais marcantes da Constituição mexicana. A proibição da reeleição presidencial está prevista no artigo 83 da Constituição Política dos Estados Unidos Mexicanos de 1917, atualmente vigente, embora modificada por sucessivas reformas constitucionais. O texto original já proibia a reeleição presidencial, mas a vedação foi flexibilizada por reformas realizadas em 1927 e 1928. A proibição absoluta foi restabelecida pela reforma constitucional de 1933 e permanece vigente. Essa limitação, contudo, alcança apenas o ocupante da Presidência. Não existe regra equivalente para os partidos políticos. Apesar da rígida vedação à reeleição presidencial, um mesmo grupo partidário permaneceu no comando do Poder Executivo por aproximadamente 71 anos. Essa opção constitucional não surgiu por acaso. Foi construída a partir de uma experiência histórica que levou o país a associar a permanência prolongada de uma mesma pessoa na Presidência ao risco de concentração excessiva do poder. Essa experiência teve como principal protagonista o presidente Porfirio Díaz, cuja longa permanência no comando do país marcou profundamente a história política mexicana. Porfirio Díaz permaneceu no centro do poder político mexicano durante aproximadamente três décadas. Exerceu diretamente a Presidência entre 1876 e 1880 e, após um intervalo de quatro anos, retornou ao cargo em 1884, nele permanecendo até 1911. Durante a Presidência de Manuel González, entre 1880 e 1884, Díaz continuou exercendo forte influência política, embora não ocupasse formalmente o cargo. Esse período, conhecido como Porfiriato, foi marcado por crescimento econômico, expansão das ferrovias, desenvolvimento da infraestrutura, atração de investimentos estrangeiros e modernização de setores da administração pública. Ao longo do tempo, entretanto, a permanência prolongada de Díaz foi acompanhada pela concentração do poder, pela redução da competição eleitoral, pelo enfraquecimento da oposição e por restrições às liberdades políticas. A permanência prolongada de Porfirio Díaz na Presidência passou, gradualmente, a despertar crescente oposição política. Esse descontentamento culminou, em 1910, na divulgação do Plano de San Luis Potosí por Francisco I. Madero, documento que denunciou fraude eleitoral, declarou nulas as eleições, rejeitou a continuidade de Díaz na Presidência e convocou os mexicanos a se levantarem em armas em 20 de novembro daquele ano. Esse chamado marcou o início da Revolução Mexicana, período em que a expressão “sufrágio efetivo, não reeleição” passou a constituir uma referência da organização constitucional do país. Após cerca de seis meses de confrontos, Porfirio Díaz renunciou à Presidência em maio de 1911 e deixou o país. Essa experiência contribuiu para que a não reeleição se tornasse uma das características mais marcantes da organização constitucional mexicana após a Revolução. Conforme já comentado, o México adotou a vedação completa da reeleição, o que torna o seu modelo diferente do norte-americano, que permite duas eleições presidenciais. A regra assegura a escolha de um novo Presidente ao final de cada mandato. Entretanto, ela não obriga a substituição do partido político que governa. A renovação das pessoas e a continuidade do partido Em 1929, foi criado o Partido Nacional Revolucionário (PNR). A organização passou a chamar-se Partido da Revolução Mexicana (PRM) em 1938 e, em 1946, adotou a denominação Partido Revolucionário Institucional (PRI), nome que mantém até os dias atuais. Apesar das mudanças de denominação e de sua reorganização ao longo do tempo, o partido preservou sua continuidade política e permaneceu no comando do Poder Executivo mexicano durante a maior parte do século XX. Embora os Presidentes fossem substituídos a cada seis anos e nenhum deles pudesse ser reeleito, o PRI permanecia no poder, indicava um novo candidato à Presidência e conservava o comando do governo federal. A renovação do ocupante da Presidência não representa, necessariamente, alternância plena de poder, pois pode ocorrer mudança da pessoa que governa e, ao mesmo tempo, continuidade do grupo político e da rede de influências que um partido, ao permanecer no poder por longo período, pode construir junto às instituições do Estado. Um partido dominante em eleições pouco competitivas Durante grande parte do período compreendido entre 1929 e 2000, o PRI não foi apenas o partido mais votado. Ocupou posição dominante dentro de um sistema no qual a oposição participava das eleições, mas enfrentava condições muito desiguais para disputar efetivamente o poder. Nesse contexto, seria impreciso descrever todo esse período continuado de vitórias partidárias como uma democracia plenamente competitiva. De acordo com Crespo (2001), o PRI ocupou durante décadas a posição de partido hegemônico. A oposição era legalmente admitida, mas participava de uma competição eleitoral marcada por condições muito desiguais, que dificultavam a possibilidade de derrotar o partido governante. A longa permanência do partido, portanto, não pode ser explicada apenas pela preferência reiterada e livre do eleitorado. Ela também esteve associada à concentração de recursos políticos, ao controle institucional, à fragilidade da competição eleitoral e à proximidade entre a estrutura partidária e a administração do Estado. O risco democrático não decorre simplesmente de um partido vencer muitas eleições. Decorre da possibilidade de sua permanência prolongada modificar as próprias condições da disputa, dificultando que outras forças políticas tenham oportunidades reais de alcançar o governo. Quando o partido e o Estado se aproximam excessivamente Embora um partido político não seja uma pessoa física e possa renovar seus dirigentes, candidatos e programas, sua permanência prolongada no poder pode favorecer a consolidação de um mesmo projeto político e de uma estrutura de influência construída ao longo do tempo, cujos efeitos institucionais ultrapassam os mandatos individuais de seus governantes. A substituição periódica dos Presidentes não impede necessariamente esse processo. Em determinadas circunstâncias, ela pode renovar as pessoas enquanto preserva a mesma estrutura partidária de poder. Quando uma organização partidária permanece por décadas no governo, pode ampliar gradualmente sua influência sobre a administração pública e instituições do Estado. No caso mexicano, a mudança periódica dos Presidentes não produziu, por si só, renovação do grupo político que exercia o poder. Durante décadas, o PRI permaneceu como a principal força política do país, preservando a continuidade do sistema de governo apesar da sucessão dos ocupantes da Presidência. A experiência revela que limitar a permanência individual de um Presidente não basta quando o partido governante se aproxima excessivamente das instituições que deveria apenas administrar temporariamente. Assim como a Presidência não constitui patrimônio pessoal de seu ocupante, o Estado não pode transformar-se em patrimônio político de um partido. O México não limitou o tempo do partido no poder Apesar da hegemonia prolongada do PRI, o México não criou uma regra que obrigasse um partido a deixar o governo depois de determinado número de mandatos. Para efeito ilustrativo, o México não estabeleceu, por exemplo, que uma legenda somente poderia eleger três ou quatro Presidentes sucessivos, permanecendo no poder por 18 ou 24 anos, período significativamente superior ao limite imposto ao Presidente, justamente porque o risco que se procura enfrentar é diverso. Uma eventual limitação temporal para partidos políticos suscitaria um dilema constitucional distinto daquele observado na limitação dos mandatos presidenciais. Relacionar-se-ia ao período máximo durante o qual uma mesma legenda poderia ocupar continuamente a Presidência, ainda que por meio de líderes diferentes. Com a adoção do limite de mandatos, a preocupação deixaria de ser a permanência prolongada de uma única pessoa no poder e passaria a concentrar-se na possibilidade de que a permanência excessivamente longa de um mesmo partido favorecesse vínculos institucionais capazes de reduzir, gradualmente, o equilíbrio da competição democrática. O México procurou enfrentar o problema por outro caminho. Em vez de impedir que um mesmo partido permanecesse por longo período no poder, buscou fortalecer gradualmente as instituições eleitorais para ampliar a competição democrática e permitir que diferentes partidos tivessem condições efetivas de disputar a Presidência. A abertura progressiva da competição eleitoral A transformação não ocorreu por meio de uma única reforma. Em 1977, uma reforma política ampliou a participação de forças até então marginalizadas e fortaleceu a representação proporcional, abrindo espaço institucional para partidos oposicionistas no Poder Legislativo. Documentos do Instituto Nacional Eleitoral tratam essa mudança como o início de uma geração de reformas que ampliou o pluralismo político e a representação das oposições. Em 1990, foi criado o Instituto Federal Eleitoral, o IFE, em resposta à necessidade de fortalecer a organização e a credibilidade das eleições. Nos anos seguintes, novas reformas reduziram progressivamente a influência direta do governo sobre a administração eleitoral. A reforma de 1996 foi especialmente relevante para ampliar a autonomia da autoridade eleitoral e consolidar condições mais equilibradas de competição. O processo também envolveu o fortalecimento da Justiça Eleitoral e a criação de mecanismos de fiscalização dos partidos, das campanhas e dos resultados. Essas reformas não tinham por finalidade substituir um partido por outro. Procuravam ampliar a competitividade do processo eleitoral para que diferentes forças políticas pudessem disputar o governo em condições mais equilibradas. A alternância de 2000 Em 2 de julho de 2000, Vicente Fox, candidato do Partido Ação Nacional, venceu a eleição presidencial. No dia seguinte, o México confirmou uma mudança que durante décadas parecera improvável: o PRI perdeu a Presidência depois de 71 anos de domínio contínuo. A mudança não resultou de uma proibição imposta ao partido governante. Decorreu da construção gradual de condições que permitiram à oposição competir, vencer e assumir o governo. A alternância de 2000 teve, assim, um significado maior do que a simples vitória de outro candidato. Demonstrou que o controle do Poder Executivo já não pertencia de maneira praticamente permanente a uma única organização partidária. O próprio PRI retornou à Presidência em 2012, por meio de uma eleição competitiva e deixou novamente o governo em 2018. Isso não significa que todos os problemas democráticos tenham sido resolvidos. O aspecto relevante é que a alternância partidária deixou de depender de uma ruptura do sistema. Passou a poder ocorrer pelas regras ordinárias da competição eleitoral. A experiência mexicana gradual e complexa face a uma possível alternativa técnica A experiência mexicana demonstra que enfrentar a permanência prolongada de um partido no poder por meio do fortalecimento gradual das instituições eleitorais exigiu sucessivas reformas implementadas ao longo de décadas. Trata-se de um processo complexo, de resultados progressivos, que demanda contínuo aperfeiçoamento institucional para preservar a competitividade democrática. Esse percurso exigiu sucessivas reformas constitucionais, legais e institucionais implementadas ao longo de quase vinte anos, entre 1977 e 1996. A experiência mexicana permite formular uma tese para reflexão no Direito Constitucional Comparado: a tese de que a adoção de um período máximo de permanência contínua de um mesmo partido no Poder Executivo poderia representar um mecanismo adicional de proteção da alternância democrática, sem impedir que o partido voltasse a disputar futuras eleições, após cumprido o período de afastamento previsto em lei. A finalidade de uma medida dessa natureza não seria excluir definitivamente um partido político da disputa pelo poder, mas apenas estabelecer uma restrição temporária à indicação de candidato à Presidência após longo período de permanência contínua no Poder Executivo, restabelecendo plenamente sua elegibilidade na eleição subsequente. A medida buscaria reafirmar que o exercício do poder público, assim como não constitui patrimônio pessoal de quem ocupa a Presidência, também não deve ser confundido com patrimônio permanente de uma organização partidária High-TechSociety - Análise A experiência mexicana demonstra que a substituição periódica do Presidente não assegura, por si só, a renovação do poder político. Durante aproximadamente 71 anos, o México impediu a reeleição presidencial e renovou sucessivamente seus governantes. Ainda assim, o mesmo partido permaneceu no controle do Poder Executivo e exerceu influência dominante sobre importantes estruturas do Estado. O país optou por fortalecer gradualmente a competição política, ampliar a autonomia das autoridades eleitorais e criar condições para que a oposição pudesse efetivamente disputar o governo. Tratou-se de um processo complexo, gradual, com implementação ao longo de várias décadas e de resultados demorados, que exigiu sucessivas reformas constitucionais, legislativas e administrativas até que a alternância partidária se tornasse efetivamente possível. O caso mexicano mostra que limitar a pessoa e permitir a continuidade indefinida do partido pode preservar apenas uma renovação aparente. Mudam-se os ocupantes da Presidência, mas a estrutura dominante permanece. O desafio está, portanto, em construir instituições que preservem a liberdade de escolha do eleitor sem permitir que a permanência prolongada transforme o governo em domínio permanente de uma organização política. Essa experiência suscita uma reflexão no direito constitucional comparado. Em vez de atuar apenas sobre as condições da competição eleitoral, seria possível conceber um mecanismo preventivo que limitasse o período máximo de permanência contínua de um mesmo partido no Poder Executivo? Uma hipótese dessa natureza não impediria definitivamente um partido de voltar ao governo. Poderia apenas estabelecer um período máximo de permanência contínua, seguido de um intervalo obrigatório antes da apresentação de novo candidato à Presidência. Diferentemente do modelo mexicano, baseado em sucessivas reformas destinadas a reduzir gradualmente a predominância do partido governante, mas que exigiu décadas de mudanças para ter efetividade, essa alternativa buscaria impedir preventivamente que uma única organização acumulasse, durante décadas, influência suficiente para comprometer o equilíbrio da competição democrática. A proposta não pretende substituir as soluções hoje existentes, mas ampliar o debate sobre novos instrumentos destinados a preservar a alternância democrática e evitar a concentração prolongada do poder político. A experiência mexicana abre espaço para uma nova reflexão: Se um partido continuar vencendo eleições livres e competitivas durante décadas, essa permanência deve ser integralmente respeitada ou a democracia precisaria desenvolver novos mecanismos para limitar a permanência prolongada de um mesmo partido no poder? Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Fontes: CÁMARA DE DIPUTADOS DEL H. CONGRESO DE LA UNIÓN. Constitución Política de los Estados Unidos Mexicanos. CRESPO, José Antonio. Mexique 2000: l’année de la déroute du parti hégémonique. Politique étrangère, v. 66, n. 1, p. 123–137, 2001. DOI: 10.3406/polit.2001.5049 INSTITUTO FEDERAL ELECTORAL. Gobernabilidad, partidos y elecciones en México (1977–2010). INSTITUTO FEDERAL ELECTORAL. Instituto Federal Electoral: 20 años. INSTITUTO NACIONAL ELECTORAL. El Instituto Federal Electoral: presencia y legado. INSTITUTO NACIONAL ELECTORAL. Historia del Instituto Federal Electoral. INSTITUTO NACIONAL ELECTORAL. Historia. Reformas e acontecimentos mais importantes relacionados ao IFE e ao INE. TRIBUNAL ELECTORAL DEL PODER JUDICIAL DE LA FEDERACIÓN. AMLO y Fox, dos elecciones similares TRIBUNAL ELECTORAL DEL PODER JUDICIAL DE LA FEDERACIÓN. Declaración de validez de la elección y de Presidente Electo de los Estados Unidos Mexicanos: proceso electoral federal 1999–2000. UNIVERSIDAD NACIONAL AUTÓNOMA DE MÉXICO - FARO DEMOCRÁTICO. La democracia en México. Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia no México: A renovação dos governantes é suficiente quando o mesmo partido permanece no poder durante décadas? High-Tech Society, 13 jul. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/democracia-no-m%C3%A9xico
- Democracia no Equador
Como equilibrar a disputa eleitoral quando um dos concorrentes já ocupa o cargo e busca a reeleição? High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Uma Série do High-Tech Society Cada democracia desenvolve mecanismos próprios para enfrentar desafios relacionados ao exercício do poder e ao funcionamento do processo eleitoral. A série Democracias pelo Mundo convida o leitor a conhecer como diferentes países procuram responder a essas questões. Ao acompanhar essa trajetória, amplia-se o conhecimento sobre as diferentes experiências democráticas e sobre como elas contribuem para o aperfeiçoamento contínuo das instituições. No artigo anterior, a série analisou o modelo mexicano, que impede a reeleição presidencial e busca assegurar a renovação periódica da chefia do Poder Executivo. Agora, o foco se desloca para uma questão diferente, mas igualmente relevante: como preservar a igualdade entre candidatos quando uma autoridade eleita disputa a reeleição para o mesmo cargo? Democracia no Equador A disputa eleitoral, quando uma autoridade eleita busca a reeleição para o mesmo cargo, coloca lado a lado candidatos que concorrem em condições distintas. Em determinadas funções públicas, especialmente aquelas exercidas no Poder Executivo, o ocupante do cargo participa diariamente de atos oficiais, anuncia políticas públicas e mantém contato permanente com a estrutura estatal, circunstâncias que podem gerar relevante assimetria competitiva. Para reduzir esse tipo de assimetria, diversos mecanismos jurídicos podem ser adotados durante o período eleitoral. Restrições à publicidade institucional, ao uso da máquina pública, à inauguração de obras e a outras formas de atuação estatal constituem exemplos de medidas voltadas à preservação da igualdade na disputa. O Equador optou por ir além. O legislador equatoriano decidiu acrescentar uma medida adicional. Além de preservar os mecanismos tradicionais de controle da máquina pública, a partir de 2020 passou a exigir que autoridades candidatas à reeleição imediata se afastem temporariamente do cargo, durante o período oficial de campanha eleitoral. Essa assimetria é particularmente evidente quando um dos candidatos exerce a chefia do Poder Executivo. Entretanto, o legislador equatoriano optou por adotar uma solução de alcance mais amplo, aplicável às autoridades eleitas que buscam a reeleição para o mesmo cargo. Da licença facultativa ao afastamento obrigatório Até 2020, o afastamento do cargo era facultativo, a decisão de afastar-se era uma escolha da própria autoridade eleita que disputava a reeleição. Em caso de decidir pelo afastamento, lhe era concedida uma licença sem vencimentos. Por outro lado, manter-se no cargo significava continuar no poder e manter a remuneração do cargo. Nas eleições de 2013, quando a licença ainda era facultativa, o então Presidente Rafael Correa permaneceu no exercício do cargo nos primeiros 14 dias da campanha oficial e a sua licença sem remuneração foi iniciada no 15° dia da campanha em curso. O afastamento, naquele momento, era uma decisão exclusiva do governante e não havia exigência de quando deveria ser iniciado. A reforma de 2020 alterou esse modelo, ao determinar o afastamento obrigatório desde o primeiro dia da campanha eleitoral. Importante esclarecer que, no Equador, a licença obrigatória não se restringe ao Presidente da República ou aos demais ocupantes de cargos do Poder Executivo. A regra alcança todas as autoridades eleitas pelo voto popular que disputem reeleição imediata para o mesmo cargo, incluindo Vice-Presidente, Deputados Nacionais, Governadores Provinciais, Prefeitos e outras autoridades eletivas. A duração do afastamento acompanha integralmente o período oficial da campanha eleitoral, definido pelo Conselho Nacional Eleitoral. Embora esse período varie conforme cada eleição, as campanhas presidenciais recentes tiveram duração relativamente curta: 45 dias em 2013, 45 dias em 2017 e 35 dias em 2021. A obrigatoriedade está no artigo 93 do Código da Democracia (Lei Orgânica Eleitoral e de Organizações Políticas da República do Equador): "Los dignatarios de elección popular que opten por la reelección inmediata al mismo cargo deberán hacer uso de licencia sin remuneración desde el inicio de la campaña electoral.” (As autoridades eleitas pelo voto popular que optarem pela reeleição imediata para o mesmo cargo deverão tirar licença sem remuneração desde o início da campanha eleitoral). Uma solução mais direta A mudança adotada pelo Equador parte de uma lógica simples. Em vez de depender exclusivamente da fiscalização posterior de inúmeros comportamentos potencialmente irregulares, a legislação reduz preventivamente uma importante fonte de assimetria eleitoral: o exercício simultâneo das funções inerentes ao cargo público e da condição de candidato à reeleição. O afastamento temporário não elimina todas as assimetrias existentes entre os concorrentes, mas reduz de forma objetiva a influência direta decorrente do exercício cotidiano do cargo público durante a campanha. Essa característica faz da licença obrigatória uma medida preventiva, de cumprimento objetivamente verificável. O afastamento não substitui os demais controles Durante o período eleitoral, embora o candidato à reeleição já tenha sido afastado do cargo, já estando desvinculado temporariamente das funções públicas, permanecem em vigor outras proibições destinadas a preservar a neutralidade da administração pública e impedir o uso da estrutura estatal em benefício de candidaturas. Nesse período, os órgãos e as instituições do Estado, ficam proibidos de divulgar publicidade ou propaganda institucional por rádio, televisão, meios digitais, imprensa escrita, materiais impressos, painéis publicitários ou outros meios de comunicação. A legislação admite apenas comunicações de interesse público expressamente justificadas, como informações sobre interdições ou alterações de vias e obras, orientações em situações de emergência ou catástrofe e campanhas relacionadas à prevenção, vacinação, saúde pública, funcionamento das atividades escolares e segurança da população. Também é proibida a exposição, em conteúdos audiovisuais produzidos com recursos públicos, da imagem, da voz ou do nome de pessoas registradas como candidatas. Desse modo, durante o processo eleitoral, a comunicação institucional do Estado não pode ser utilizada para promover ou reforçar a vinculação da autoridade afastada do cargo às ações institucionais. Essa combinação revela um aspecto importante do modelo equatoriano. O afastamento temporário procura reduzir a vantagem institucional decorrente da presença do governante no exercício diário do cargo, enquanto as demais restrições continuam protegendo a neutralidade da administração pública durante o processo eleitoral. Em outras palavras, trata-se de mecanismos complementares, e não excludentes. A justificativa da reforma A própria documentação produzida durante a reforma eleitoral esclarece a finalidade da alteração. O Conselho Nacional Eleitoral do Equador identificou que candidatos à reeleição disputavam eleições em condições diferentes daquelas enfrentadas pelos demais concorrentes. Por essa razão, propôs que a licença deixasse de ser facultativa e passasse a ser obrigatória, reforçando o objetivo de promover maior igualdade entre os candidatos. A mudança foi posteriormente incorporada ao Código da Democracia pela Assembleia Nacional, permanecendo em vigor. High-Tech Society – Análise A experiência equatoriana demonstra que o debate sobre igualdade na competição eleitoral pode ser enfrentado por diferentes técnicas legislativas. Em vez de confiar exclusivamente na fiscalização de condutas praticadas durante a campanha, o Equador acrescentou uma medida preventiva: o afastamento temporário das autoridades que disputam a reeleição para o mesmo cargo. O afastamento temporário das autoridades candidatas à reeleição imediata não substituiu os mecanismos tradicionais de controle do uso da máquina pública, da publicidade institucional e dos recursos estatais. Ao contrário, passou a integrar esse conjunto de medidas, impedindo o exercício simultâneo das atribuições do cargo público e da condição de candidato à reeleição durante o período oficial de campanha. Os mecanismos democráticos adotados pelo Equador para promover maior equilíbrio na disputa eleitoral, demonstram que o fortalecimento das instituições democráticas exige avaliação permanente e capacidade de aperfeiçoamento, à luz da própria experiência. A evolução da legislação equatoriana evidencia que as democracias podem aprimorar continuamente seus modelos institucionais em resposta aos desafios identificados na aplicação de suas normas. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Fontes: EQUADOR. Constitución de la República del Ecuador, 2008. Assembleia Constituinte. EQUADOR. Ley Orgánica Electoral y de Organizaciones Políticas de la República del Ecuador – Código de la Democracia. Conselho Nacional Eleitoral (CNE). EQUADOR. Ley Reformatoria al Código de la Democracia, Registro Oficial, 3 fev. 2020. CONSEJO ELECTORAL NACIONAL (CNE). Calendario de las elecciones generales de 2021. CONSEJO ELECTORAL NACIONAL (CNE). Calendario de las elecciones generales de 2013. ASAMBLEA NACIONAL DE ECUADOR. La Asamblea concede una licencia al presidente Rafael Correa para que participe en la campaña electoral (2013). ASAMBLEA NACIONAL DE ECUADOR. La Asamblea Nacional aplica el artículo 93 del Código de la Democracia a los diputados que se postulan para la reelección (2025). ASAMBLEA NACIONAL DE ECUADOR. Tramitación legislativa de la reforma del artículo 93 del Código de la Democracia. Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia no Equador: Como equilibrar a disputa eleitoral quando um dos concorrentes já ocupa o cargo e busca a reeleição? High-Tech Society, 29 jul. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/democracia-no-equador
- Democracia no Peru
Como uma democracia pode fornecer informações mais amplas para que o eleitor possa avaliar, de forma independente, qual dos candidatos lhe parece mais preparado para exercer a Presidência? A experiência do Peru revela uma forma de ampliar as informações disponíveis ao eleitor antes da escolha de quem irá governar. High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar A série Democracias pelo Mundo vem apresentando diferentes mecanismos adotados por países para enfrentar desafios presentes no funcionamento de suas democracias. O artigo Democracia na Costa Rica, apresentou uma experiência relacionada à participação de filiados nas convenções partidárias de escolhas daqueles que chegam ao processo eleitoral como candidatos. Neste novo episódio, avançamos para outra etapa do processo: uma vez apresentadas as candidaturas, quais informações estão disponíveis para que o eleitor possa conhecer melhor aqueles que pretendem governar o país? A experiência do Peru oferece um interessante caminho para essa reflexão. CASA DE PIZARRO (PALÁCIO DE GOVERNO DO PERU), BANDEIRA DO PERU, MACHU PICCHU E CONDOR-DOS-ANDES Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Democracia no Peru Em uma democracia, o voto atribui ao cidadão o poder de escolher seus governantes. Entretanto, exercer esse poder pressupõe não apenas liberdade de escolha, mas também acesso a informações que permitam conhecer aqueles que pretendem ocupar cargos eletivos. Essa questão adquire especial relevância na escolha do Presidente da República. Liderança política, capacidade de comunicação e identificação com determinados projetos políticos, entre outros aspectos, são elementos que podem influenciar o eleitor. Mas o exercício da Presidência também envolve decisões complexas, coordenação da administração pública, definição de prioridades de governo e outras atribuições relevantes. Como permitir que o eleitor conheça melhor o preparo dos candidatos, considerando um modelo que não estabelece filtros relacionados à formação, capacitação ou experiência para quem pretende disputar a Presidência? A experiência peruana oferece um caso interessante para essa reflexão. Ampla possibilidade de candidaturas e eleitores mais informados A Constituição do Peru não exige formação universitária nem experiência administrativa ou profissional para alguém disputar a Presidência. Ser peruano de nascimento, ter pelo menos 35 anos e estar no pleno exercício de seus direitos políticos são os requisitos constitucionais. A ausência de exigências de formação e experiência profissional, por um lado, concede ampla possibilidade de candidaturas ao cargo; por outro, o modelo peruano procura assegurar que os eleitores tenham acesso a informações sobre essas questões, ampliando os elementos disponíveis para que possam avaliar qual candidato consideram mais capacitado para exercer a Presidência. Nesse sentido, a legislação peruana determina que os candidatos apresentem uma Declaración Jurada de Hoja de Vida (Declaração Juramentada de Informações Curriculares), em formato definido pelo JNE-Jurado Nacional de Elecciones (Júri Nacional de Eleições). Apesar de o nome poder sugerir um currículo profissional, a declaração referida possui conteúdo mais abrangente. Trata-se de um documento oficial do processo eleitoral no qual o candidato presta informações sobre sua formação acadêmica, experiência profissional, trajetória política, cargos exercidos e outras informações previstas na legislação, incluindo determinadas decisões judiciais, bens e rendimentos, responsabilizando-se pelo conteúdo informado. Por sua vez, o JNE-Júri Nacional de Eleições é um organismo constitucional autônomo que exerce funções jurisdicionais, fiscalizadoras, normativas, educativas e administrativas em matéria eleitoral. Entre suas atribuições estão administrar a Justiça Eleitoral, fiscalizar a legalidade dos processos eleitorais e exercer as demais competências relacionadas à organização e ao funcionamento do sistema eleitoral peruano. Há, portanto, uma característica importante no modelo: embora formação ou experiência profissional não constituam requisitos para disputar a Presidência, essas informações são formalmente apresentadas e colocadas à disposição dos eleitores. Da declaração do candidato à informação disponível ao eleitor Para as eleições gerais de 2026, o JNE estabeleceu um formato único para essa declaração e regulamentou seu registro no sistema eleitoral, sua fiscalização e o respectivo procedimento sancionador, sendo parte integrante do processo eleitoral. Uma vez registradas, as informações declaradas são submetidas à fiscalização do sistema eleitoral. Segundo o JNE, essa fiscalização tem por finalidade dar transparência à trajetória declarada pelos candidatos perante a população e estimular a participação dos eleitores na análise das informações apresentadas. A fiscalização inclui a verificação das informações declaradas pelos candidatos. Para isso, o sistema eleitoral utiliza recursos informatizados, informações obtidas por meio de convênios institucionais e consultas dirigidas a entidades públicas e privadas. Há também consequências para determinadas omissões. Nas eleições de 2026, por exemplo, os candidatos devem informar em sua declaração de vida as sentenças condenatórias definitivas por crimes dolosos, inclusive quando a pena já tenha sido cumprida. A omissão dessa informação pode ocasionar a exclusão da candidatura. O dever de declarar uma condenação, entretanto, não significa que a simples prestação dessa informação torne o condenado apto a concorrer: a legislação peruana estabelece impedimentos à candidatura para pessoas condenadas por crimes dolosos com pena privativa de liberdade, além de regras específicas para determinadas categorias de crimes. Condenações já cumpridas podem, conforme o caso e após a reabilitação judicial, deixar de constituir impedimento eleitoral, sem que desapareça o dever de informá-las. Essa consequência mais rigorosa, contudo, não se aplica indistintamente às demais informações declaradas pelo candidato. Informações incorretas sobre sua formação ou experiência profissional, por exemplo, não produzem a mesma consequência. Voto Informado O JNE mantém, em seu website, o programa Voto Informado, iniciativa destinada a oferecer à população informações oficiais e acessíveis sobre candidatos, partidos políticos, propostas e processos eleitorais. As informações prestadas pelos candidatos nas Declarações Juramentadas de Informações Curriculares ganham outra dimensão quando chegam ao eleitor por meio da plataforma Voto Informado, juntamente com outras informações relevantes para o processo de escolha Embora o programa Voto Informado, do JNE, alcance diferentes cargos eletivos, este estudo concentra-se em sua aplicação à eleição presidencial, considerando as responsabilidades associadas ao exercício da Presidência da República. Durante as eleições gerais de 2026, a plataforma reuniu informações curriculares dos candidatos e planos de governo apresentados pelas organizações políticas. No caso das candidaturas à Presidência, o eleitor pôde consultar, em ambiente oficial, informações relacionadas à formação, experiência profissional, trajetória política e propostas dos concorrentes. Comparar antes de escolher No segundo turno da eleição presidencial de 2026, realizado em 7 de junho e disputado por Keiko Fujimori, do partido Fuerza Popular, e Roberto Sánchez, do partido Juntos por el Perú, o programa Voto Informado permitiu ao eleitor comparar as duas candidaturas presidenciais, reunindo informações curriculares, planos de governo e resumos das propostas apresentadas pelos dois partidos. Esse mecanismo acrescenta algo importante à simples publicação de documentos. O eleitor não precisava limitar sua análise às informações apresentadas separadamente por cada campanha. Passava a dispor de um ambiente institucional no qual diferentes informações podiam ser consultadas e comparadas segundo seus próprios critérios. O programa Voto Informado não atribuía pontuação à formação ou à experiência dos candidatos nem estabelecia qual deles seria mais preparado para governar. Organizava e disponibilizava informações para subsidiar essa avaliação pelo cidadão. A informação foi efetivamente acessada? Há um dado particularmente relevante. Entre janeiro e abril de 2026, o programa Voto Informado registrou 65.077.571 de visualizações. Somente a seção dedicada às candidaturas à Presidência e às Vice-Presidências recebeu 6.096.635 de visualizações. Os números demonstram que as informações disponibilizadas pelo sistema eleitoral alcançaram expressivo nível de consulta durante o processo eleitoral, o que evidencia o interesse dos eleitores em ter acesso a mais informações sobre os candidatos para auxiliar no processo de escolha, uma relevante responsabilidade cívica. O mecanismo também não se limitou às informações das Declarações Juramentadas de Informações Curriculares. O JNE incentivou os cidadãos a examinarem os planos de governo, também disponíveis na plataforma Voto Informado, e disponibilizou resumos e informações sistematizadas de seus conteúdos, facilitando o acesso e a compreensão dessas informações pelos eleitores. No segundo turno da eleição presidencial, o órgão promoveu ainda um debate técnico com especialistas dos dois partidos políticos concorrentes, permitindo ao público conhecer, contrastar e avaliar suas propostas e planos de governo. Forma-se, assim, um conjunto mais amplo de informações: quem é o candidato, qual sua formação e experiência, qual sua trajetória e o que o seu partido político propõe realizar caso chegue ao governo. Em uma disputa eleitoral tão equilibrada, o acesso a informações amplas sobre formação, experiência, trajetória e propostas dos candidatos adquire relevância ainda maior, pois oferece aos eleitores mais elementos para formar sua própria convicção antes do voto. A eleição terminou com uma disputa bastante equilibrada. Keiko Fujimori venceu com 9.223.396 votos, equivalentes a 50,135% dos votos válidos, enquanto Roberto Sánchez obteve 9.173.755 votos, correspondentes a 49,865%. A diferença entre os dois candidatos foi de apenas 49.641 votos. A pequena diferença de votos levou o partido de Roberto Sánchez a contestar resultados de diversas mesas e a apresentar pedidos de nulidade. Ao examinar essas contestações, o JNE considerou que os elementos apresentados não comprovavam as irregularidades alegadas. Segundo o tribunal, a planilha estatística utilizada como fundamento da contestação não apresentava indícios de manipulação, adulteração ou substituição dos resultados. Alguns recursos relacionados a atas eleitorais específicas foram parcialmente acolhidos, sem, contudo, alterar o resultado da eleição. A Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), organização internacional da qual o Peru é Estado-membro e que acompanha processos eleitorais por meio de missões de observação, também informou não ter identificado irregularidades na contagem dos votos. O JNE proclamou oficialmente Keiko Fujimori presidente eleita da República do Peru, em 3 de julho de 2026. Para compreender como se chegou a esse resultado, é importante observar também a forma como os eleitores peruanos registram seus votos. O sistema eleitoral peruano utiliza, para quase totalidade do eleitorado, o voto convencional, realizado por meio de cédulas físicas de papel. Nas Eleições Gerais de 2026, o voto digital foi introduzido de forma experimental e bastante limitada, com apenas cerca de 0,04% do eleitorado registrado para participar dessa modalidade, permanecendo aproximadamente 99,96% do eleitorado no universo do voto por meio de cédulas físicas de papel. O projeto-piloto de 2026 do voto digital priorizou principalmente grupos que enfrentam dificuldades para comparecer aos locais de votação, seja pela distância, por questões de acessibilidade, ou pelo exercício de determinadas funções no próprio dia da eleição. Assim, nessa primeira experiência, o voto digital foi adotado como uma aplicação bastante restrita à públicos específicos. High-Tech Society — Análise No Peru, a inexistência de requisitos mínimos de formação acadêmica ou experiência profissional para a candidatura presidencial convive com um sistema que exige a apresentação de informações curriculares, submete parte dessas informações à fiscalização eleitoral e as disponibiliza à população por meio de ferramentas oficiais. O mecanismo não resolve, por si só, a questão mais ampla sobre quais competências são necessárias para exercer adequadamente a chefia do Poder Executivo. Tampouco responde ao debate sobre a conveniência ou não de democracias estabelecerem requisitos mínimos relacionados à formação ou experiência dos candidatos. Essa é uma questão diferente e que permanece aberta. A experiência peruana permite observar algo mais delimitado: quando a legislação não utiliza formação e experiência como critérios prévios de elegibilidade, essas informações ainda podem ser organizadas, fiscalizadas e disponibilizadas de maneira acessível para que integrem o processo de avaliação realizado pelos eleitores. Deste modo, permite sair de uma visão limitante a uma percepção mais ampla dos candidatos. Durante a campanha política, o candidato à Presidência assume um papel em que evidencia sua capacidade de liderança, sua oratória e seu poder de convencimento junto aos eleitores. Contudo, uma vez eleito, outras capacidades serão necessárias para o desempenho das funções de Presidente. Funções executivas complexas envolvem capacidades que não se resumem ao poder de convencimento demonstrado durante a campanha. Desse modo, disponibilizar aos eleitores amplo acesso a informações sobre a formação, a experiência profissional e a trajetória de vida dos candidatos pode reduzir os riscos de uma escolha baseada apenas nas impressões construídas durante o processo eleitoral. A experiência peruana fornece, concretamente, uma base ampliada de informações aos eleitores antes do voto, permitindo-lhes conhecer melhor aqueles que pretendem exercer a Presidência e fortalece o processo decisório de escolha entre os candidatos. Ao ampliar as condições para que o eleitor forme sua convicção, o mecanismo contribui para o fortalecimento da própria democracia. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Fontes: CONGRESO DE LA REPÚBLICA DEL PERÚ. Constitución Política del Perú - Artículo 110: Presidente de la República. DIARIO OFICIAL EL PERUANO: Elecciones 2026: JNE proclamará mañana viernes al mediodía resultados de la segunda vuelta. La OEA descarta irregularidades en escrutinio de la segunda vuelta presidencial. JURADO NACIONAL DE ELECCIONES: Fiscalización de las Declaraciones Juradas de Hoja de Vida de los Candidatos. Reglamento de la Declaración Jurada de Hoja de Vida de Candidato para las Elecciones Generales 2026 – Resolución N.º 167-2025-JNE. JNE publicó Reglamento de Hoja de Vida de Candidatos a las EG 2026. JNE pone a disposición la plataforma digital “Voto Informado” con datos de fórmulas y listas de candidatos para las EG 2026. JNE presenta la plataforma “Voto Informado” con Hojas de Vida de Candidatos y Planes de Gobierno. Más de 65 millones de visualizaciones registró la plataforma Voto Informado del JNE. JNE proclama a Keiko Fujimori Higuchi como presidenta electa de la República. Acta General de Proclamación de Resultados de la Segunda Elección Presidencial – Elecciones Generales 2026. Elecciones 2026: JNE proclamará mañana viernes al mediodía resultados de la segunda vuelta. JNE declaró infundado pedido de nulidad de votos en 1751 mesas de sufragio del país. Pleno del JNE publicó resultados de la votación de expedientes de audiencia pública. Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia no Peru: Como uma democracia pode fornecer informações mais amplas para que o eleitor possa avaliar, de forma independente, qual dos candidatos lhe parece mais preparado para exercer a Presidência? High-Tech Society, 9 ago. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/democracia-no-peru
- Democracia na Dinamarca
Em uma democracia, o que poderia explicar o elevado comparecimento às urnas em um país em que o voto é facultativo? High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Este é o nono artigo da série "Democracias pelo Mundo", dedicada a apresentar experiências, mecanismos e características de diferentes países que possam contribuir para a compreensão de como as democracias procuram aperfeiçoar seus sistemas políticos, suas instituições e a participação dos cidadãos Nos artigos anteriores, a série abordou diferentes aspectos do funcionamento democrático e dos processos eleitorais. Neste novo episódio, o foco se desloca para uma questão essencial à própria participação popular: o que pode explicar um elevado comparecimento às urnas quando o cidadão possui plena liberdade para decidir se deseja ou não votar? BANDEIRA DA DINAMARCA, PALÁCIO DE CHRISTIANSBORG¹, AS PEDRAS RÚNICAS DE JELLING² E UM CISNE-MUDO3 Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Democracia na Dinamarca A Dinamarca é uma monarquia constitucional com sistema parlamentarista. O chefe de Estado é o Rei Frederik X, que ocupa o trono desde janeiro de 2024, quando sucedeu sua mãe, a Rainha Margrethe II, que abdicou do trono após 52 anos de reinado. O Rei exerce funções essencialmente representativas e cerimoniais. A chefe de governo é a Primeira-Ministra Mette Frederiksen, no cargo desde 2019, formalmente nomeada pelo monarca. A democracia parlamentar e a monarquia convivem, assim, em esferas distintas. A escolha dos representantes políticos e a sustentação do governo pertencem ao processo democrático, enquanto o monarca exerce a chefia do Estado sem participar da disputa político-partidária e sem governar. O rei preserva seu papel tradicional e institucional como chefe de Estado. Essa tradição possui raízes históricas profundas: a monarquia dinamarquesa tem mais de mil anos de existência, remonta aos reis vikings do século X e é uma das mais antigas do mundo. Embora existam registros de reis anteriores, a atual tradição monárquica dinamarquesa pode ser traçada com segurança histórica a partir do reinado de Gorm den Gamle, situado aproximadamente entre os anos 936 e 958. Mesmo sem exercer o governo, o monarca mantém uma presença institucional na vida do Estado. O primeiro-ministro - Chefe do Governo - e o ministro das Relações Exteriores reúnem-se regularmente com o rei - Chefe do Estado - para mantê-lo informado sobre a situação política interna e externa. Essa relação, contudo, não transfere ao monarca a responsabilidade pelas decisões políticas: o governo responde politicamente perante o Parlamento. Essa separação de funções permite uma convivência singular entre duas instituições de origens muito distintas: uma monarquia com mais de mil anos de tradição e uma democracia parlamentar na qual o exercício do poder político depende da representação escolhida pelos cidadãos. Ao preservar o monarca como chefe de Estado, sem atribuir-lhe o governo do país, a Dinamarca conseguiu conciliar a continuidade de uma tradição histórica com o exercício democrático do poder político. É dentro desse contexto de democracia parlamentar que se destaca outro aspecto da experiência dinamarquesa: a elevada participação dos cidadãos nas eleições. A experiência da Dinamarca oferece elementos particularmente interessantes para responder a essa questão. Isto porque o voto não é obrigatório e o eleitor que decide não participar de uma eleição não sofre qualquer sanção. Ainda assim, o comparecimento às urnas permanece elevado. Nas eleições parlamentares realizadas em 24 de março de 2026, 83,99% dos eleitores aptos a votar compareceram às urnas. Dos 4.303.429 cidadãos habilitados, 3.614.272 votaram. O dado se torna ainda mais significativo quando se observa o comportamento daqueles que decidiram participar. Apenas 1,29% dos votos depositados foram considerados inválidos. Na Dinamarca, os votos em branco integram a categoria dos votos inválidos, embora sejam identificados separadamente nos resultados eleitorais. Foram 46.647 votos inválidos, dos quais 37.597 estavam em branco. Assim, aproximadamente 98,7% dos cidadãos que voluntariamente compareceram às urnas fizeram um voto válido. Não se trata de um resultado isolado. Nas últimas seis eleições parlamentares, o comparecimento às urnas permaneceu sempre acima de 83%: foi de 86,59% em 2007; 87,74% em 2011; 85,89% em 2015; 84,60% em 2019; 84,16% em 2022; e 83,99% em 2026. Por que, então, cidadãos que possuem plena liberdade para não votar comparecem às eleições em número tão expressivo? A resposta parece estar menos em uma medida isolada e mais em um conjunto de características sociais e institucionais construídas ao longo do tempo. O voto como um compromisso cívico consciente Para Hansen (2020), o elevado comparecimento eleitoral dinamarquês tem como uma de suas explicações centrais a existência de uma forte percepção social do voto como dever cívico, cultivada desde a escola primária e posteriormente reforçada pela sociedade civil. O voto não é obrigatório, mas o elevado comparecimento espontâneo às urnas está associado a uma dimensão cívica e social construída desde a formação de crianças e adolescentes e posteriormente reforçada pela sociedade. O autor também aponta como fatores relevantes o registro eleitoral automático e tradições sociais que favorecem a participação nas eleições. Essa formação começa muito antes de o jovem adquirir o direito de votar. Democracia também se aprende na escola A formação democrática integra oficialmente os objetivos da escola pública do país, a Folkeskole. O Ministério da Educação estabelece entre suas finalidades preparar os alunos para participar, assumir responsabilidades compartilhadas e compreender seus direitos e deveres em uma sociedade livre e democrática. A legislação educacional estabelece ainda que as atividades cotidianas da escola sejam desenvolvidas em um ambiente baseado na liberdade intelectual, no respeito à igual dignidade das pessoas e na democracia. A educação escolar constitui, assim, um dos ambientes em que crianças e adolescentes têm contato com princípios de participação, responsabilidade, direitos e deveres associados à vida democrática. Esse processo ocorre em um ambiente democrático marcado por elevado grau de liberdade política e civil. O "Freedom in the World", relatório global publicado anualmente pela Freedom House4 que avalia os direitos políticos e as liberdades civis nos países, classificou, em sua edição de 2026, a Dinamarca como país "livre", atribuindo-lhe 97 pontos em uma escala de 0 a 100. O resultado coloca o país em posição de grande destaque quanto à proteção das liberdades e dos direitos políticos. A avaliação reconhece a Dinamarca como uma democracia robusta, com eleições livres e regulares e ampla proteção às liberdades de expressão e de associação. Essa liberdade também possui proteção constitucional. O § 77 da Constituição dinamarquesa - cuja estrutura normativa utiliza parágrafos numerados diretamente, e não artigos - garante ao cidadão o direito de expressar publicamente seus pensamentos e proíbe a censura e outras formas de restrição prévia à liberdade de expressão. A Freedom House atribuiu ainda pontuação máxima ao quesito que avalia se as pessoas podem manifestar suas opiniões sobre questões políticas ou outros temas sensíveis sem receio de vigilância ou represália, indicando que a Dinamarca alcançou - na avaliação - o grau máximo de liberdade para expressar opiniões políticas. Facilitar o exercício de um direito que permanece facultativo A cultura cívica encontra respaldo em uma estrutura eleitoral que procura reduzir obstáculos à participação. O registro eleitoral é automático e baseado nos registros públicos da população. O cidadão que reúne os requisitos legais para votar não precisa realizar previamente uma inscrição eleitoral específica para participar da eleição. O sistema também permite o voto antecipado e prevê alternativas destinadas a pessoas que, por diferentes circunstâncias, poderiam encontrar dificuldades para comparecer no dia normal da votação. A característica merece atenção porque revela uma combinação particular: o Estado não obriga o cidadão a votar, mas procura reduzir dificuldades para aquele que deseja exercer esse direito. O próprio estudo de Hansen (2020) inclui o funcionamento eficiente do registro eleitoral automático entre os fatores que ajudam a explicar a elevada e estável participação dinamarquesa. A liberdade de decidir se deseja participar permanece preservada, enquanto algumas das barreiras administrativas que poderiam dificultar essa participação são reduzidas. Confiança nas instituições Outro aspecto relevante do contexto dinamarquês é o nível de confiança em importantes instituições públicas. A Pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) sobre os determinantes da confiança nas instituições públicas, com dados coletados em 2025 e divulgados em 2026, mostrou que 77% dos dinamarqueses declararam confiança alta ou moderadamente alta no Poder Judiciário e 73% na Polícia. Os percentuais são menores quando se passa das instituições permanentes para a esfera político-partidária. A confiança no governo nacional foi de 44%, enquanto 35% manifestaram confiança alta ou moderadamente alta nos partidos políticos. Essa diferença é relevante para compreender o ambiente democrático. O cidadão pode discordar do governo, desconfiar dos partidos ou desejar uma mudança política e, ao mesmo tempo, manter confiança nas instituições responsáveis pela aplicação das leis e pela preservação de seus direitos. A confiança institucional, portanto, não deve ser confundida com aprovação do governo ou apoio aos partidos que disputam o poder. Há também um indicador externo relacionado especificamente à confiabilidade do processo eleitoral. Antes das eleições parlamentares de março de 2026, o Escritório para Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR), da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), realizou uma avaliação para determinar a necessidade de acompanhamento internacional da eleição. Após examinar o ambiente pré-eleitoral e consultar instituições públicas, partidos políticos, imprensa, sociedade civil e representantes da comunidade internacional, a avaliação encontrou elevado grau de confiança na administração e no processo eleitoral e não identificou necessidade que justificasse uma atividade de observação. Diante desse cenário, o ODIHR concluiu que não havia necessidade de enviar uma missão de observação eleitoral para acompanhar a eleição dinamarquesa de 2026. Condições socioeconômicas e educacionais A elevada participação eleitoral também ocorre dentro de um contexto de desenvolvimento econômico, educacional e social que não deve ser desconsiderado. A Dinamarca possui aproximadamente 6 milhões de habitantes e, considerando os países com dados comparáveis de 2025, apresenta o oitavo maior PIB per capita do mundo, com aproximadamente US$ 77 mil por habitante, segundo dados do Banco Mundial. Esse elevado nível de renda, entretanto, não deve ser considerado isoladamente como causa do elevado comparecimento. As condições socioeconômicas e educacionais devem ser compreendidas, portanto, como parte de um ambiente mais amplo, no qual também estão presentes educação democrática, facilidade para exercer o voto, confiança institucional e uma forte percepção social favorável à participação eleitoral, associada à compreensão do voto como dever cívico. High-Tech Society - Análise Um dos aspectos mais significativos da experiência dinamarquesa está justamente na liberdade de escolha. O cidadão pode deixar de votar, votar em branco, rejeitar os partidos existentes e desconfiar do governo. Mesmo assim, eleição após eleição, o comparecimento voluntário às urnas permanece acima de 80% do eleitorado. Não existe uma única explicação para esse comportamento. Hansen (2020) destaca a forte percepção social do voto como dever cívico. A esse aspecto somam-se a formação para a participação democrática incorporada ao sistema educacional, o registro eleitoral automático, os mecanismos que facilitam o exercício do voto e os elevados níveis de confiança no Poder Judiciário e na polícia. Importante destacar que a confiança menos elevada no governo e nos partidos políticos não se traduz em afastamento do processo eleitoral. Mesmo diante desse resultado, o comparecimento às urnas permanece elevado, indicando que a participação eleitoral também constitui um meio pelo qual o cidadão pode manifestar suas escolhas, inclusive quando deseja mudanças na condução política do país. A elevada taxa histórica de comparecimento às eleições mostra que a sociedade dinamarquesa foi além de motivações circunstanciais e incorporou a participação eleitoral à própria cultura democrática, revelando uma participação cívica consolidada ao longo do tempo. A experiência dinamarquesa evidencia como a formação cívica desenvolvida ao longo do tempo, associada à liberdade política e às condições institucionais que facilitam a participação democrática, tem contribuído para consolidar uma cultura na qual os cidadãos, mesmo sem a obrigatoriedade do voto, comparecem em grande número às eleições. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Notas: ¹ O Palácio de Christiansborg é um palácio e prédio governamental, é a sede do Parlamento Dinamarquês (Folketinget), escritório do Primeiro Ministro e da Suprema Corte da Dinamarca, é a única construção do mundo que abriga os três poderes simultaneamente. Algumas partes do palácio, também são usadas pelo monarca, incluido as Salas de Recepções Reais, a Capela e os Estábulos Reais. Está localizado na ilha de Slotsholmen, no centro de Copenhague. ² As Pedras de Jelling são dois monumentos de granito do século X, localizados na cidade de Jelling, na península da Jutlândia, Dinamarca. Conhecidas como a “certidão de nascimento” do país, representam um período de transição entre a cultura viking e a consolidação do cristianismo no reino. Uma das pedras, erguida pelo Rei Gorm den Gamle, contém a mais antiga referência conhecida ao nome “Dinamarca”, enquanto a outra, erguida por seu filho Harald Bluetooth, registra a unificação do reino e sua cristianização. O conjunto histórico de Jelling é reconhecido como Patrimônio Mundial pela UNESCO desde 1994. 3 O cisne-mudo (Cygnus olor), também chamado de cisne-branco, é uma das espécies de cisne mais conhecidas e é a ave nacional da Dinamarca desde 1984, escolhida após voto em TV nacional. A espécie é mundialmente famosa no país devido à forte ligação com a cultura local e com os contos de fadas de Hans Christian Andersen, especialmente "O Patinho Feio". A célebre história de Andersen transformou o cisne em uma metáfora clássica de beleza e transformação interior dentro da literatura infantil dinamarquesa. Andersen celebrou o país no texto "O Ninho de Cisnes", descrevendo a Dinamarca como um lugar místico onde nascem cisnes cujos nomes jamais serão esquecidos. 4 A Freedom House é uma organização apartidária e sem fins lucrativos sediada em Washington, D.C., fundada em outubro de 1941 por Wendell Willkie e Eleanor Roosevelt. A organização parte do princípio de que a liberdade prospera em nações democráticas nas quais os governos são responsáveis perante seu povo. Atua na promoção e defesa da liberdade em âmbito global, com o propósito de contribuir para um mundo em que todas as pessoas sejam livres. Fontes: BØRNE- OG UNDERVISNINGSMINISTERIET. Folkeskolens formål. DANMARKS STATISTIK. Folketingsvalg. DANMARKS STATISTIK. Folketingsvalg tirsdag. DET DANSKE KONGEHUS. H.M. Kongen FREEDOM HOUSE. About. INDENRIGS- OG SUNDHEDSMINISTERIET. Nu kan du dykke ned i nøgletallene fra folketingsvalget INDENRIGS- OG SUNDHEDSMINISTERIET. Hvad sker der, hvis jeg stemmer blankt? FOLKETINGET : Grundloven og det danske demokrati Sådan dannes en regering Grundlovens § 2. Grundlovens § 14. HANSEN, Kasper M. (2020). Electoral Turnout: Strong Social Norms of Voting. In: The Oxford Handbook of Danish Politics. Oxford University Press. OECD. OECD Survey on Drivers of Trust in Public Institutions 2026 Results — Denmark. OSCE/ODIHR. Denmark, Early General Elections, 24 March 2026: Needs Assessment Mission Report. RETSINFORMATION. Bekendtgørelse af lov om folkeskolen. SCHRØDER, Kim; BLACH-ØRSTEN, Mark. Denmark — Digital News Report. Reuters Institute for the Study of Journalism, University of Oxford. STATSMINISTERIET. Statsminister Mette Frederiksen WIKIPEDIA. Christiansborg Slot WORLD BANK. GDP per capita (current US$) Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia na Dinamarca: Em uma democracia, o que poderia explicar o elevado comparecimento às urnas em um país em que o voto é facultativo? High-Tech Society, 15 ago. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/democracia-na-dinamarca
- Democracia na Costa Rica
Quem escolhe quem disputa a eleição? A experiência da Costa Rica mostra por que a escolha dos candidatos também deve ser democrática. High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Quando se fala em democracia, a imagem mais comum é a do eleitor comparecendo às urnas para escolher seus representantes. Entretanto, existe uma etapa anterior que recebe muito menos atenção, embora seja decisiva para todo o processo eleitoral: quem escolhe os candidatos que chegarão à urna? A resposta parece simples: os partidos políticos. Mas a forma como essa escolha é realizada pode variar significativamente entre as democracias. Em alguns países, a definição dos candidatos concentra-se nas decisões da direção partidária. Em outros, procura-se assegurar que os próprios filiados participem diretamente desse processo, por meio de assembleias, convenções ou eleições internas. Afinal, se o eleitor somente pode escolher entre os candidatos que lhe são apresentados, a qualidade da democracia também depende da forma como esses candidatos foram escolhidos. Foi justamente essa preocupação que levou a Costa Rica a adotar uma solução pouco conhecida fora da América Central. O artigo 98 da Constituição costarriquenha determina que os partidos políticos são instrumentos fundamentais da participação política e estabelece que sua estrutura interna e seu funcionamento devem ser democráticos. A democracia, portanto, não é exigida apenas das eleições organizadas pelo Estado, mas também da vida interna das próprias organizações partidárias. Essa diretriz constitucional não permaneceu apenas no papel. O Código Eleitoral da Costa Rica determina que os partidos mantenham um Tribunal Eleitoral Interno, órgão responsável por organizar, administrar e fiscalizar seus processos eleitorais internos com observância dos princípios da imparcialidade, objetividade e transparência. Além disso, o Tribunal Supremo de Eleições (TSE), autoridade máxima da justiça eleitoral costarriquenha, consolidou o entendimento de que a democracia interna dos partidos possui relevância constitucional. Em diversas decisões, reconheceu que os partidos desempenham papel essencial na formação da vontade popular e que suas regras internas devem respeitar os princípios democráticos previstos na Constituição, podendo seus atos ser submetidos ao controle da Justiça Eleitoral quando houver alegação de violação desses princípios. Isso não significa que o sistema seja perfeito ou que conflitos internos deixem de existir. Como ocorre em qualquer democracia consolidada, continuam surgindo debates sobre a efetiva participação dos filiados, a transparência dos procedimentos internos e a interpretação das regras partidárias. O aspecto que diferencia a experiência costarriquenha é outro: a democracia interna dos partidos deixou de ser apenas uma expectativa política para tornar-se um princípio constitucional acompanhado por mecanismos institucionais destinados a conferir-lhe efetividade. Essa diretriz constitucional não permaneceu apenas no plano dos princípios. Em 24 de julho de 2019, o Tribunal Supremo de Eleições (TSE) da Costa Rica publicou a Resolução n.º 4808-E8-2019, em resposta a uma consulta formulada pelo Partido Unidad Social Cristiana (PUSC) sobre os limites da atuação de sua direção partidária nos processos internos de escolha de candidatos. Entre os questionamentos apresentados ao Tribunal estavam a possibilidade de alterar regras para inscrição de pré-candidaturas após o início da disputa interna, reabrir prazos já encerrados e modificar decisões do Tribunal Eleitoral Interno do próprio partido. Ao responder à consulta, o Tribunal reafirmou que as regras que disciplinam uma disputa eleitoral interna devem estar claramente definidas antes da abertura do processo e não podem ser modificadas durante sua realização, justamente para preservar a igualdade entre os participantes, a segurança jurídica e a transparência das eleições internas. Também destacou que o Tribunal Eleitoral Interno possui autonomia funcional e administrativa, não estando subordinado à direção partidária para exercer suas atribuições. O modelo costarriquenho parte do pressuposto de que a escolha dos candidatos deve ocorrer por meio de processos democráticos com participação dos filiados do partido, não pela simples vontade de sua direção. A própria Justiça Eleitoral reconhece, contudo, situações excepcionais em que a assembleia superior do partido pode realizar indicação direta de candidatos. Isso ocorre, por exemplo, quando, encerrado o prazo de inscrição para a disputa interna, não houver filiados interessados que preencham os requisitos previamente estabelecidos para determinada candidatura. Nessas hipóteses restritas, a indicação direta funciona como medida subsidiária para evitar que a vaga permaneça sem candidato, e não como substituição da regra geral de participação democrática dos filiados. Na prática, a Resolução n.º 4808-E8-2019 reforçou um princípio essencial da democracia interna costarriquenha: a escolha dos candidatos deve obedecer a regras previamente conhecidas por todos os participantes, preservando a participação dos filiados, a igualdade de oportunidades e a transparência do processo. Assim, a democracia interna dos partidos deixou de representar apenas um ideal constitucional para tornar-se um parâmetro efetivo de controle exercido pela Justiça Eleitoral. High-Tech Society – Análise A experiência da Costa Rica convida a uma reflexão que raramente ocupa espaço no debate público. A democracia não começa quando o eleitor escolhe entre os candidatos apresentados. Ela começa antes, no momento em que esses candidatos são escolhidos pelos próprios partidos políticos. Quanto mais transparente, participativo e democrático for esse processo interno, maiores tendem a ser a legitimidade das candidaturas e a confiança dos próprios filiados na organização partidária. Independentemente do modelo adotado por cada país, a experiência costarriquenha demonstra que fortalecer a democracia interna dos partidos não significa limitar sua autonomia, mas reconhecer que os partidos exercem uma função pública essencial: selecionar as pessoas que posteriormente serão submetidas ao julgamento soberano do eleitor. Em última análise, a qualidade da democracia depende não apenas da liberdade de votar, mas também da forma como são escolhidos aqueles que disputarão a confiança da sociedade. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Fontes: CONSTITUCIÓN POLÍTICA DE LA REPÚBLICA DE COSTA RICA. Artículo 98. MORA BARAHONA, Iván. Dialéctica entre la democracia interna y el autogobierno de los partidos políticos en la nominación de candidatos a los puestos de elección popular. Revista de Derecho Electoral, Tribunal Supremo de Elecciones, República de Costa Rica, n. 29, 1.º semestre de 2020. DOI: 10.35242/RDE_2020_29_14. TRIBUNAL SUPREMO DE ELECCIONES (TSE), REPÚBLICA DE COSTA RICA. Normativa Electoral. TRIBUNAL SUPREMO DE ELECCIONES (TSE), REPÚBLICA DE COSTA RICA. RESOLUÇÃO n.º 4808-E8-2019. TRIBUNAL SUPREMO DE ELECCIONES (TSE), REPÚBLICA DE COSTA RICA. Resoluciones relevantes: Partidos políticos. Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Democracia na Costa Rica: Quem escolhe quem disputa a eleição? A experiência da Costa Rica mostra por que a escolha dos candidatos também deve ser democrática. High-Tech Society, 4 jul. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/quem-escolhe-quem-disputa-a-eleição
- Por que o tênis liderou um estudo científico sobre expectativa de vida?
Um estudo científico identificou que o tênis apresentou a maior associação estatística com o ganho estimado de expectativa de vida entre as modalidades esportivas analisadas. No entanto, essa associação deve ser interpretada à luz dos limites metodológicos ressaltados pelos próprios pesquisadores. High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá | Citar Entre os diversos benefícios tradicionalmente atribuídos à prática regular de atividades físicas, poucos resultados despertaram tanta curiosidade quanto os apresentados no estudo Various Leisure-Time Physical Activities Associated With Widely Divergent Life Expectancies: The Copenhagen City Heart Study, (Diversas atividades físicas de lazer associadas a expectativas de vida amplamente distintas: o Estudo do Coração da Cidade de Copenhague), publicado em 2018 na revista Mayo Clinic Proceedings e conduzido por Peter Schnohr e sua equipe de pesquisadores. Trata-se de um estudo populacional prospectivo baseado em questionários detalhados sobre a participação em diferentes modalidades esportivas e atividades físicas de lazer. A pesquisa utilizou dados de 8.577 participantes do Copenhagen City Heart Study, uma pesquisa epidemiológica de longa duração realizada na Dinamarca. Na análise publicada em 2018, esses participantes foram acompanhados por até 25 anos. Os pesquisadores avaliaram a associação entre a prática esportiva e a mortalidade por todas as causas utilizando dados coletados durante os exames realizados no Copenhagen City Heart Study entre 10 de outubro de 1991 e 16 de setembro de 1994. A mortalidade desses participantes foi então acompanhada até 22 de março de 2017. A análise revelou um resultado que surpreendeu os próprios pesquisadores: entre as modalidades esportivas avaliadas, o tênis apresentou a maior associação estatística com o maior aumento estimado de expectativa de vida. O tênis apareceu na primeira posição Ao comparar praticantes de diferentes modalidades esportivas com pessoas sedentárias, os pesquisadores encontraram a seguinte associação entre cada esporte e o aumento estimado da expectativa de vida: Modalidade Ganho estimado de expectativa de vida* Tênis 9,7 anos Badminton 6,2 anos Futebol 4,7 anos Ciclismo 3,7 anos Natação 3,4 anos Corrida 3,2 anos Ginástica 3,1 anos Academia 1,5 ano *Estimativas obtidas em comparação com pessoas sedentárias. O resultado chamou a atenção, pelo fato do tênis ter superado modalidades tradicionalmente associadas ao condicionamento cardiovascular, como corrida, ciclismo e natação. Apesar dos resultados chamativos, os próprios autores fizeram uma ressalva fundamental. A pesquisa foi um estudo observacional, no qual os pesquisadores acompanharam os participantes ao longo do tempo e analisaram a associação entre seus hábitos de vida e a mortalidade por todas as causas. Embora a pesquisa tenha utilizado informações obtidas em exames clínicos e em questionários do Copenhagen City Heart Study, a modalidade esportiva foi identificada por autorrelato, acompanhando a associação entre a prática de atividades físicas no tempo livre (lazer) e a mortalidade por todas as causas. Por isso, seus resultados indicam associações estatísticas, mas não permitem concluir que a prática do tênis seja, por si só, a causa do maior tempo de vida observado. Mas o que poderia explicar esse resultado? Embora o estudo não permita estabelecer uma relação de causalidade, os pesquisadores apresentaram possíveis explicações para a associação observada. A comparação com o grupo de sedentários serviu como referência para estimar a expectativa de vida associada às diferentes modalidades esportivas. O principal achado do estudo foi que essa associação variou de forma significativa entre os esportes analisados. Entre eles, o tênis apresentou a maior associação estatística com o aumento estimado da expectativa de vida. Entretanto, esse resultado deve ser interpretado com cautela, pois outros fatores, como alimentação, condições socioeconômicas, acesso aos serviços de saúde, nível educacional, hábitos de vida e características individuais, também podem ter influenciado essa associação. Essa distinção entre associação estatística e causalidade é um dos fundamentos da metodologia científica, especialmente na interpretação de estudos observacionais, e deve ser considerada sempre que seus resultados são divulgados ao público. Por que justamente o tênis? Os próprios pesquisadores procuraram compreender esse resultado, mas deixaram claro que o estudo não foi desenvolvido para identificar suas causas. Uma das hipóteses apresentadas é que determinadas modalidades esportivas combinam os benefícios da atividade física com intensa interação social. Entre aquelas que apresentaram os maiores ganhos estimados de expectativa de vida encontram-se justamente esportes praticados com parceiros ou equipes, como tênis, badminton e futebol. Segundo os autores, a convivência frequente, a construção de relações sociais e o fortalecimento dos vínculos interpessoais podem representar benefícios adicionais à saúde, além daqueles proporcionados pelo exercício físico. Uma nova pesquisa que utilizou dados da pesquisa de 2018 O estudo de 2018 não encerrou essa linha de investigação. Em 2021, parte da mesma equipe de pesquisadores publicou um novo trabalho utilizando novamente dados do Copenhagen City Heart Study. Desta vez, o objetivo foi investigar como a duração semanal da prática de diferentes modalidades esportivas se associava à mortalidade por todas as causas, buscando compreender se existia uma quantidade de exercício relacionada aos menores riscos observados. Os pesquisadores observaram que a relação entre tempo de prática e mortalidade não era linear. Em diversas modalidades, tanto a prática insuficiente quanto o excesso de treinamento estiveram associados a resultados menos favoráveis, sugerindo que existe uma faixa intermediária de prática potencialmente mais benéfica. Esse segundo estudo pode ser visto como uma evolução natural da linha de pesquisa iniciada anteriormente. O primeiro perguntou, em essência, "qual esporte está associado à maior expectativa de vida?", o segundo avançou para "como a duração semanal da prática dessas modalidades se associa à mortalidade? O que esses estudos realmente nos ensinam? Talvez a principal contribuição dessas pesquisas não seja estabelecer um "ranking definitivo" entre os esportes. Os resultados reforçam que a prática regular de atividade física está associada a melhores indicadores de saúde e expectativa de vida, ao mesmo tempo em que sugerem que fatores sociais podem desempenhar um papel importante nesse processo. O tênis apresentou a maior associação estatística com o aumento estimado da expectativa de vida entre as modalidades avaliadas. No entanto, o desenho observacional da pesquisa não permite determinar quanto dessa associação pode ser atribuída à prática do tênis e quanto pode resultar de outros fatores. Na ciência, descobertas relevantes costumam abrir novas perguntas. E foi exatamente isso que ocorreu: em vez de encerrar o debate, os resultados estimularam novas investigações sobre como exercício físico, interação social e estilo de vida podem atuar conjuntamente na promoção da saúde. Em 2024, seis anos após o estudo dinamarquês, uma nova pesquisa internacional intitulada Sport and Longevity: An Observational Study of International Athletes (Esporte e longevidade: um estudo observacional com atletas internacionais) ampliou significativamente o universo analisado, reunindo dados de 95.210 ex-atletas de 183 países e 44 modalidades esportivas. Os resultados voltaram a indicar uma associação positiva entre os esportes de raquete — como tênis e badminton — e maior tempo de vida. Diferentemente da pesquisa publicada em 2018, porém, o tênis não ocupou a primeira posição entre as modalidades avaliadas, embora tenha permanecido entre aquelas associadas aos resultados mais favoráveis. O tênis e o badminton apresentaram uma associação consistente e positiva tanto em atletas masculinos quanto femininos, como evidenciado por uma longevidade de até 5,7 anos em homens e 2,8 anos em mulheres. Esse achado reforça que essa linha de investigação continua em evolução e ainda demanda novos estudos para esclarecer os fatores responsáveis pelas diferenças observadas entre as modalidades esportivas. Embora o estudo de 2024 não tenha produzido evidências conclusivas sobre as causas dessa associação, os autores formularam uma hipótese para explicar os resultados. Segundo eles, modalidades que combinam características aeróbicas e anaeróbicas — os chamados "esportes mistos" — poderiam proporcionar maiores benefícios ao longo da vida. De acordo com essa hipótese, os esportes mistos exigem, de forma equilibrada, resistência cardiovascular, explosão muscular, potência, velocidade, mudanças frequentes de intensidade e elevado grau de coordenação motora. Ponto muito disputado entre Learner Tien e Daniil Medvedev - Australian Open 2025 O tênis é um exemplo clássico desse tipo de atividade. Durante uma partida, o atleta alterna deslocamentos rápidos, acelerações e desacelerações, períodos curtos de esforço intenso, breves intervalos de recuperação e manutenção da atividade física por longos períodos. Essa combinação recruta diferentes sistemas fisiológicos de forma integrada, diferentemente de modalidades predominantemente aeróbicas¹, como a corrida de longa distância, ou predominantemente anaeróbicas², como o levantamento de peso. Embora as evidências atualmente disponíveis apontem para uma associação entre determinadas modalidades esportivas e maior expectativa de vida, a ciência ainda busca compreender quais fatores realmente explicam esse fenômeno. O resultado observado para o tênis despertou interesse internacional e contribuiu para ampliar o debate científico e a divulgação jornalística sobre a relação entre prática esportiva, saúde e expectativa de vida. Novos estudos serão fundamentais para confirmar, refinar ou mesmo revisar as hipóteses atualmente propostas, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre como diferentes práticas esportivas podem favorecer uma vida mais longa e saudável. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Transparência editorial: Este artigo foi produzido com o apoio do ChatGPT nas etapas de pesquisa e organização preliminar do conteúdo. A definição da abordagem editorial, a análise crítica, a revisão técnica e a redação final foram realizadas pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Notas: ¹ Atividade aeróbica: caracteriza-se por esforços contínuos ou prolongados, nos quais o organismo utiliza predominantemente processos metabólicos dependentes de oxigênio para disponibilizar a energia necessária à manutenção da atividade física. No tênis, esse sistema contribui para a recuperação entre os pontos e para a manutenção do desempenho ao longo da partida. ² Atividade anaeróbica: caracteriza-se por esforços de alta intensidade e curta duração, como arrancadas, acelerações, mudanças bruscas de direção, saltos e movimentos explosivos. Nesses momentos, a energia necessária para a contração muscular é disponibilizada rapidamente, sem depender predominantemente do oxigênio. Fontes: ALTULEA A; RUTTEN MGS; VERDIJK LB; DEMARIA M. Sport and longevity: an observational study of international athletes. Geroscience. 2025 Apr;47(2):1397-1409. doi: 10.1007/s11357-024-01307-9. Epub 2024 Aug 12. PMID: 39129051; PMCID: PMC11979035. SCHNOHR, Peter; O'KEEFE, James H.; HOLTERMANN, Andreas, LAVIE, Carl; LANGE, Peter; JENSEN, Gorm Boje e MAROTT, Jacob Louis. Various Leisure-Time Physical Activities Associated With Widely Divergent Life Expectancies: The Copenhagen City Heart Study. Mayo Clinic Proceedings, v. 93, n. 12, p. 1775–1785, 2018. DOI: 10.1016/j.mayocp.2018.06.025. SCHNOHR P, O'KEEFE JH, LAVIE CJ, HOLTERMANN A, LANGE P, JENSEN GB, MAROTT JL. U-Shaped Association Between Duration of Sports Activities and Mortality: Copenhagen City Heart Study. Mayo Clin Proc. 2021 Dec;96(12):3012-3020. doi: 10.1016/j.mayocp.2021.05.028. Epub 2021 Aug 17. PMID: 34412854. SCHNOHR P; O'KEEFE JH; MAROTT JL; LANGE P; Jensen GB. Dose of jogging and long-term mortality: the Copenhagen City Heart Study. J Am Coll Cardiol. 2015 Feb 10;65(5):411-9. doi: 10.1016/j.jacc.2014.11.023. PMID: 25660917. Como citar esta publicação: ANDRADE, Luiz Inácio Caribé Cincurá de. Por que o tênis liderou um estudo científico sobre expectativa de vida? High-Tech Society, 2 ago. 2026. Disponível em: https://www.high-techsociety.com/post/por-que-o-t%C3%AAnis-liderou-um-estudo-cient%C3%ADfico-sobre-expectativa-de-vida
- A trajetória tecnológica da máquina de lavar
Da engenhosidade mecânica do século XVIII à automação inteligente do século XXI High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá A máquina de lavar roupas é um dos eletrodomésticos que mais impactou positivamente a vida moderna. Sua história foi construída por quase 260 anos de engenharia, segurança e inovação. Mais do que um equipamento doméstico, ela representa a capacidade humana de automatizar tarefas repetitivas e reduzir riscos, liberando tempo e energia para atividades mais significativas. A motivação original: reduzir esforço e evitar acidentes Lavar roupas era uma das tarefas mais pesadas do cotidiano. Envolvia aquecer grandes quantidades de água, esfregar tecidos manualmente e torcer peças encharcadas; um processo que podia consumir um dia inteiro. Além do esforço físico, havia riscos reais: queimaduras, lesões musculares e acidentes com rolos de torcer roupa, que podiam prender dedos e mãos. A motivação dos primeiros inventores foi, portanto, mecânica e de segurança: criar um equipamento que reduzisse o esforço humano e diminuísse acidentes. As primeiras ideias: quando a engenharia encontrou a necessidade (1767–1833) Máquina de lavar de Jacob Christian Schäffer (1767) A mecanização da lavagem de roupas começou muito antes da eletricidade. Em 1767, o alemão Jacob Christian Schäffer apresentou um dos primeiros projetos documentados de uma máquina de lavar. Construída em madeira e equipada com pás internas, sua invenção buscava reduzir o esforço físico exigido pela lavagem manual. Era simples, mas introduzia um conceito fundamental: a roupa poderia ser movimentada por um mecanismo, não apenas pelas mãos. Máquina de lavar de Henry Sidgier (1782) Poucos anos depois, em 1782, o inglês Henry Sidgier deu um passo decisivo ao patentear uma máquina com tambor rotativo. Esse movimento cilíndrico contínuo, ainda manual, antecipava o princípio central das máquinas modernas. Pela primeira vez, a lavagem deixava de depender exclusivamente da fricção e passava a explorar o potencial do movimento rotacional. Em 1833, a norte‑americana National Washboard Co. apresentou equipamentos que integravam tábuas de esfregar ao conjunto. Embora ainda distantes da automação, essas máquinas tornaram o processo mais eficiente e padronizado, aproximando a tecnologia do uso doméstico. A era das patentes mecânicas: o nascimento do protótipo moderno (1851–1874) A partir da metade do século XIX, a evolução da máquina de lavar ganhou ritmo. Em 1851, o norte‑americano James King registrou a primeira máquina com tambor metálico rotativo acionado por manivela. Seu projeto é frequentemente considerado o primeiro protótipo moderno, pois estabeleceu a estrutura básica que seria aperfeiçoada nas décadas seguintes. Em 1858, Hamilton Smith introduziu um sistema de agitação mecânica interna, que movimentava a roupa dentro do tambor. Esse mecanismo é o precursor direto dos agitadores presentes em muitas máquinas top‑load atuais e representou um avanço significativo na eficiência da lavagem. Máquina de lavar de William Blackstone (1874) Já em 1874, William Blackstone construiu uma máquina de lavar como presente de aniversário para sua esposa. A Blackstone Washer (1874), produzida nos Estados Unidos, foi uma das primeiras máquinas de lavar comercializadas para uso doméstico. Ela foi construída em madeira, com pás internas acionadas por manivela, e incluía o espremedor de rolos. Seu modelo, ainda manual, tornou‑se o primeiro equipamento realmente prático para uso doméstico. A partir dele, surgiram versões comerciais que começaram a se espalhar entre famílias que buscavam reduzir o esforço físico da lavagem. A chegada da eletricidade: o salto que mudou tudo (1908–1937) Máquina de lavar Thor, de Alva J. Fischer (1908) O início do século XX marcou a transição definitiva da máquina de lavar para o universo dos eletrodomésticos. Em 1908, Alva J. Fisher desenvolveu a Thor, considerada a primeira máquina de lavar elétrica produzida em escala industrial. Fabricada pela Hurley Machine Company, a Thor introduziu um motor elétrico acoplado a um tambor metálico, automatizando a agitação e inaugurando uma nova era. Bendix Home Laundry (1937): primeira máquina de lavar totalmente automática O passo seguinte foi a automação completa. Em 1937, a Bendix Home Laundry lançou a primeira máquina de lavar totalmente automática, capaz de lavar, enxaguar, centrifugar e desligar sozinha. Esse modelo estabeleceu o conceito de operação contínua e independente — um marco que moldaria o padrão das décadas seguintes. Popularização, segurança e eficiência: a máquina de lavar entra nos lares (1940–1970) Após a Segunda Guerra Mundial, a eletrificação urbana e a produção industrial em massa tornaram as máquinas de lavar mais acessíveis. Motores isolados, tambores fechados, travas de segurança e sistemas de centrifugação substituíram os antigos rolos de torcer roupa, reduzindo acidentes e melhorando o desempenho. A partir dos anos 1950, a máquina de lavar consolidou-se como símbolo de modernidade. A combinação de eficiência, segurança e praticidade transformou a rotina doméstica e liberou tempo para outras atividades — um impacto social profundo e duradouro. A evolução da máquina de lavar roupas: dos fatos históricos à visão futurística A era digital: sensores, automação e inteligência artificial (1980–2026) A partir dos anos 1980, a máquina de lavar entrou definitivamente no universo da eletrônica. Os primeiros controles digitais substituíram botões puramente mecânicos e permitiram ciclos mais precisos, tempos programáveis e maior segurança operacional. Nas décadas seguintes, a evolução se acelerou com a chegada dos motores inverter, que trouxeram silêncio, eficiência energética e maior durabilidade, além de movimentos mais suaves e controlados dentro do tambor. Em paralelo, surgiram sensores de carga e de nível de sujeira, capazes de ajustar automaticamente a quantidade de água, o tempo de lavagem e a intensidade da agitação, reduzindo desperdícios e otimizando o desempenho. A tecnologia avançou ainda mais com a introdução da dosagem automática de sabão, que calcula a quantidade ideal de detergente para cada ciclo, e com a lavagem a vapor, que melhora a higienização e reduz amassados. Os ciclos antialérgicos, voltados para roupas delicadas e tecidos sensíveis, ampliaram o uso do equipamento para diferentes perfis de família. A conectividade Wi‑Fi transformou a máquina em um dispositivo integrado ao ambiente doméstico digital, permitindo monitoramento remoto, diagnósticos automáticos e atualizações de software. Nos modelos mais recentes, a inteligência artificial passou a desempenhar um papel central. Algoritmos analisam o tipo de tecido, o peso da carga, o nível de sujeira e até o padrão de uso do consumidor, ajustando automaticamente cada etapa do processo. A integração entre lavadora e secadora, antes restrita a ambientes industriais, tornou‑se comum em residências, oferecendo ciclos combinados que lavam e secam sem intervenção humana. O resultado é um equipamento mais eficiente, econômico e adaptável, que continua evoluindo em direção a maior autonomia, sustentabilidade e precisão. Ao olhar para essa trajetória de inovações por quase 260 anos, fica evidente que a máquina de lavar roupas se tornou um símbolo de como a tecnologia é capaz de transformar profundamente a vida cotidiana. Da engenhosidade dos antigos mecanismos de madeira e manivela aos modernos sistemas guiados por inteligência artificial, cada avanço ampliou a eficiência, reduziu o esforço físico e devolveu às famílias algo precioso: tempo e energia para dedicar a outras atividades. A máquina de lavar contemporânea, equipada com sensores inteligentes, motores precisos e ciclos automatizados, representa não apenas uma solução para a limpeza de roupas, mas uma tecnologia que redefiniu, com impacto silencioso e duradouro, o próprio ritmo do lar. Por Luiz Cincurá Fundador e Editor High-TechSociety.com Este artigo foi produzido com apoio do Microsoft Copilot na etapa de pesquisa e organização preliminar. A edição final foi revisada e ampliada pelo Editor, responsável final pelo conteúdo publicado. Nota técnica Algumas publicações na internet mencionam datas muito anteriores ao século XVIII como suposta origem das máquinas de lavar roupas. Há inclusive referência a uma patente de 1691, como sendo a primeira máquina de lavar. O referido documento a descreve como um dispositivo para torcer, espremer e auxiliar a lavagem, provavelmente um mecanismo de torção ou drenagem, mas não uma máquina com agitação, pás, tambor ou qualquer forma de mecanização da lavagem. Ou seja, é uma patente relacionada ao ato de lavar, mas não é uma máquina de lavar. Essas referências se baseiam em interpretações imprecisas de utensílios manuais de lavagem - como tábuas, pilões ou rolos de torção - que não possuem mecanismos internos e, portanto, não podem ser classificados como máquinas. A historiografia técnica reconhece como primeiras máquinas de lavar apenas os dispositivos mecanizados documentados a partir de 1767, quando surgem os primeiros projetos com agitação ou rotação controlada. Antes disso, não há registros confiáveis de equipamentos que realizassem qualquer forma de lavagem mecanizada. Fontes: Arquivo de Patentes do Reino Unido. Documentação sobre a patente de Henry Sidgier (1782). Acesso em 10.mai.2026. Encyclopædia Britannica – Washing Machine. Síntese histórica sobre a evolução técnica das máquinas de lavar. Acesso em 10.mai.2026. Library of Congress – Historic American Engineering Record. Registros fotográficos e técnicos de máquinas de lavar manuais e elétricas dos séculos XIX e XX. Acesso em 10.mai.2026. Museu Alemão de Tecnologia. Deutsches Technikmuseum — Registros históricos sobre os primeiros dispositivos mecanizados de lavagem. Acesso em 10.mai.2026. Smithsonian Institution – National Museum of American History. Acervo sobre máquinas de lavar do século XIX. Acesso em 10.mai.2026. Wikipedia – Washing Machine. Acesso em 10.mai.2026.
- Sphere: emoção à flor da pele
Uma poderosa experiência do sentir High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá Na expectativa de viver algo verdadeiramente extraordinário - ao me aproximar da entrada da Sphere - naquela noite inaugural de 29 de setembro de 2023, percebi que me aguardava uma experiência que ultrapassaria qualquer noção convencional de espetáculo. A cada passo, a estrutura colossal parecia pulsar, como se respirasse. A fachada iluminada, que muitos descrevem como “um planeta vivo”, já dava sinais de que ali dentro a realidade seria outra.¹ Quando finalmente atravessei o hall e subi pelas longas escadas rolantes, senti que estava deixando Las Vegas para trás. Era como entrar em um portal.² Já na área interna da arena imersiva, a primeira sensação foi de desorientação, no melhor sentido possível. A tela envolvente, maior do que qualquer coisa que eu já tinha visto, preenchia todo o meu campo de visão. Não era apenas uma tela: era um horizonte, um céu, um universo inteiro que se abria diante de mim. O público, ao meu redor, parecia igualmente atônito. Alguns riam, outros choravam, muitos apenas olhavam em silêncio absoluto, como quem testemunha algo que não sabe explicar.³ Quando as primeiras imagens surgiram, um nascer do sol tão real que parecia aquecer a pele - ouvi pessoas murmurarem “meu Deus”, “isso é impossível”, “eu nunca vi nada assim”. E não era exagero. A sensação era de estar dentro da imagem, não diante dela, e, a cada transição, o espaço se transformava completamente.⁴ E para tornar a experiência ainda mais sensacional, a consagrada banda U2 chegou ao palco. A voz de Bono parecia vir de todos os lados, amplificada por milhares de pequenos alto‑falantes distribuídos pela arena. Sem eco, sem distorção; apenas pura, limpa, precisa, mesmo diante de quase 20 mil pessoas.⁵ U2 on Vevo. U2 performing Even Better Than The Real Thing. (U2:UV Achtung Baby, Live At Sphere) Havia momentos em que eu não sabia para onde olhar. Era um bombardeio sensorial: luz, som, movimento, mas tudo perfeitamente orquestrado. Em determinado instante, quando a tela se transformou em um céu estrelado que girava lentamente, ouvi uma mulher atrás de mim dizer: “Eu sinto que estou flutuando”. E eu também senti.⁶ Para você, leitor, entender o que sustenta o impacto dessas sensações, é preciso ir além do deslumbramento inicial relatado pelo público e conhecer a proposta inovadora da Sphere: uma combinação singular de arquitetura e tecnologia, aplicada ao entretenimento para grandes públicos. Arquitetura e tecnologia de Sphere Sphere, situada em Las Vegas, Nevada, Estados Unidos, é uma arena imersiva de uso múltiplo, de altíssima tecnologia, projetada para transformar a forma como o público vivencia entretenimento ao vivo. A obra foi iniciada em março de 2018, ocorrendo uma interrupção durante a pandemia (2020) e a abertura oficial foi realizada em 29 de setembro de 2023. Sphere é o local de entretenimento mais caro já construído em Las Vegas, cujo custo final de construção atingiu US$ 2,3 bilhões. O formato esférico da obra exigiu técnicas inovadoras de construção, incluindo guindastes especializados transportados da Bélgica. O projeto foi financiado principalmente pela Madison Square Garden Entertainment, liderada pelo bilionário CEO James Dolan. Fonte: CLADnews Com 157 metros de diâmetro e 112 metros de altura, Sphere é a maior estrutura esférica do mundo. Há um revestimento externo para toda superfície da esfera, uma impressionante tela LED externa de 54.000 m², que é conhecida como Exosfera, que apresenta imagens dinâmicas impressionantes, um verdadeiro marco visual da cidade de Las Vegas. O interior da Sphere combina efeitos visuais, físicos e sonoros que não existem em casas tradicionais de espetáculos. Há 17.600 assentos, chegando a 20.000 de capacidade total de público, quando se inclui a área de piso em pé. Sphere abriga a maior tela LED em ambiente fechado do mundo, com cerca de 14.800 m² de área de exibição curva, capaz de ocupar praticamente todo o campo visual do espectador com resolução de 16K. Big Sky As incríveis imagens apresentadas na gigante tela LED são produzidas por meio da Big Sky, uma câmera cinematográfica de ultra‑alta resolução criada exclusivamente para capturar conteúdo destinado à gigantesca tela 16K da Sphere. Ela representa uma inovação tão grande quanto a própria arena: substituiu onze câmeras tradicionais, simplificando um processo que antes era extremamente complexo. A Big Sky captura imagens em 18K com nitidez uniforme graças a um sensor único de 316 megapixels e a uma lente fisheye customizada. A diferença entre gerar imagens em 18K e reproduzi‑las em 16K x 16K na imensa tela curva de reprodução de imagens da Sphere, deve‑se aos processos de correção de distorção, estabilização, mapeamento esférico e recorte. Como o conteúdo precisa ser ajustado para uma superfície imersiva e curva, capturar em resolução superior garante que a projeção final preserve definição e precisão visual em toda a área exibida. Sem essa tecnologia, a experiência imersiva da Sphere, com sua dinâmica atual de produções e apresentações, simplesmente não seria possível. Big Sky. Fonte: AV Magazine Segundo a Sphere Studios, trata‑se do sistema de câmera mais avançado do mundo, criado por “necessidade inovadora”. Não existia nada no mercado capaz de gerar imagens com a nitidez, amplitude e consistência necessárias para preencher uma tela curva de 160.000 pés (aproximadamente 14.800 m²). Sistema de áudio Holoplot A imensa tela LED do interior de Sphere foi integrada, harmonicamente, ao sistema de áudio Holoplot - composto por dezenas de milhares de alto‑falantes direcionais posicionados próximos ao público - que produz um som tão preciso que gera a sensação de estar usando fones de ouvido, mesmo em meio a quase 20 mil pessoas. Efeitos físicos sincronizados (4D) Sphere combina assentos sensoriais, vibrações de baixa frequência7, jatos de vento, variações sutis de temperatura, névoa e até aromas sincronizados para transformar cada apresentação em uma experiência física, não apenas visual. Os assentos sensoriais fazem o público sentir impactos, deslocamentos e a pulsação da música diretamente no corpo, enquanto rajadas de ar e mudanças térmicas reforçam cenas de voo, tempestades, ambientes gelados ou desérticos. Neblina e partículas projetadas no ar criam profundidade e ajudam a “dissolver” a fronteira entre a arena e a imagem, enquanto aromas temáticos completam a sensação de presença no ambiente exibido. Fonte: Spotlight Vegas Um novo marco no entretenimento A arquitetura e a tecnologia da Sphere permitem usos variados: concertos, filmes imersivos, eventos corporativos, e‑sports, transmissões especiais e experiências sensoriais criadas exclusivamente para o local. O que diferencia a Sphere de arenas convencionais é a integração entre escala monumental, arquitetura esférica e tecnologia imersiva. Enquanto casas tradicionais oferecem palco frontal e telões auxiliares, a Sphere transforma o ambiente à frente e acima da plateia em um espaço narrativo contínuo, onde imagem, som e efeitos físicos atuam de forma coordenada. Por isso, a mídia norte‑americana descreve a Sphere como um novo marco do entretenimento, que inaugurou uma categoria própria de experiências ao vivo, pois, até o momento, não existe outra arena no mundo com esse conjunto específico de características, o que permite considerá‑la única no cenário global. Atualizações mais recentes de Sphere (2025-2026) Desde sua inauguração em 2023, a Sphere evoluiu rapidamente de um marco arquitetônico para um ecossistema global de entretenimento imersivo, e as atualizações mais recentes - entre 2025 e 2026 - mostram que ela entrou em uma nova fase de maturidade tecnológica, criativa e comercial. O Mágico de Oz - Apresentado por Sphere Commercial (2025). Fonte: Judy Garland Archive A programação atual é liderada por O Mágico de OZ no Sphere (The Wizard of Oz at Sphere), uma produção imersiva criada pela Sphere Studios™ que reinterpreta o clássico de 1939 em um formato cinematográfico de altíssima resolução, projetado especialmente para a tela curva interna de 15.000 m². O espetáculo utiliza a resolução 16K, efeitos atmosféricos, áudio Holoplot e elementos sensoriais sincronizados, transformando a arena principal em um ambiente narrativo envolvente. O público predominante é familiar e multigeracional - crianças, jovens e adultos - o que ampliou significativamente o alcance da Sphere para além dos shows de música. Até 19 de janeiro de 2026, a produção ultrapassou 2 milhões de ingressos vendidos, consolidando-se como o conteúdo proprietário de maior sucesso da arena. A exosfera, por sua vez, tornou-se um meio de comunicação global. Em janeiro de 2026, a Sphere realizou uma das ativações mais comentadas do ano ao transformá-la em uma Death Star de LEGO Star Wars, uma gigantesca peça publicitária e narrativa que marcou o lançamento da plataforma LEGO® SMART Play™. A ação confirmou a exosfera como um espaço de storytelling visual para marcas internacionais, capaz de gerar impacto mundial em segundos. Outras empresas também passaram a utilizar a superfície externa como vitrine: a Delta Air Lines, agora companhia aérea oficial da Sphere, e a Anheuser‑Busch, que ampliou seu contrato de patrocínio em 2026, realizam campanhas recorrentes na exosfera, reforçando o caráter premium do espaço publicitário. No campo institucional, a Sphere Entertainment anunciou em 2026 o primeiro passo concreto de sua expansão: uma nova Sphere será construída em National Harbor, Maryland, Estados Unidos, marcando a internacionalização do conceito. O site oficial também mantém ativo o projeto Sphere Abu Dhabi, Emirados Árabes, indicando que o modelo de arena imersiva está se tornando uma plataforma global. Operacionalmente, Sphere ajustou seu modelo de negócios para combinar experiências proprietárias de longa duração — como O Mágico de OZ na Sphere (The Wizard of Oz at Sphere) com residências musicais e eventos especiais, garantindo previsibilidade de receita e maior eficiência logística. A arena também ampliou seus pacotes VIP, experiências premium e serviços corporativos, acompanhando o aumento do fluxo de visitantes e a demanda por produtos exclusivos. Essas atualizações mostram que a Sphere não é apenas uma obra monumental de engenharia e tecnologia, mas um laboratório vivo de entretenimento, em constante evolução. Em 2026, ela já opera como uma plataforma híbrida: parte cinema imersivo, parte palco de espetáculos, parte mídia global e parte centro de inovação narrativa. Um modelo que redefine o espetáculo ao vivo e aponta para o futuro da experiência coletiva. Depois de compreender a dimensão tecnológica que sustenta a Sphere, suas telas monumentais, seus efeitos sensoriais e a engenharia que redefine o espetáculo ao vivo, é valioso revisitar a experiência humana e o impacto emocional que tudo isso provoca. U2 - Beautiful Day (Thank You, Las Vegas) - U2:UV Achtung Baby, Live At Sphere As luzes se acenderam. Fim do show do U2. Ninguém queria ir embora da Sphere. As pessoas permaneciam paradas, olhando ao redor, tentando absorver o que tinham acabado de viver. A Sphere proporciona muito mais do que um espetáculo tradicional: ali, o “ver” e o “ouvir” se integram a uma poderosa experiência do “sentir”. Uma imersão intensa e envolvente que a posiciona como um novo marco na história do entretenimento. High-TechSociety.com Fundador e Editor: Luiz Cincurá luiz.cincura@high-techsociety.com Notas: Relato inspirado na crítica de Wesley Morris, The New York Times, sobre a sensação de aproximação da Sphere na noite inaugural. Impressões descritas por Alexandra Del Rosario, Deadline, ao entrar no átrio e acessar a arena. Observações de Mark Savage, BBC, sobre a reação inicial do público diante da tela envolvente. Descrição baseada em críticas de Adrian Horton, The Guardian, sobre o impacto visual das primeiras projeções. Comentários de Mikael Wood, Los Angeles Times, sobre a qualidade sonora e a performance do U2. Relato registrado por Chris Willman, Variety, sobre a sensação de flutuar durante a projeção do céu estrelado. Vibrações de baixa frequência são vibrações geradas por sons abaixo de 20 Hz, faixa chamada de infrassom. O ouvido humano quase não percebe esses sons como “som”, mas o corpo os sente como pressão, pulsação ou movimento, o que ativa o corpo, não apenas os ouvidos. O cérebro interpreta essa combinação de estímulos como algo fisicamente real, ampliando a intensidade emocional e sensorial da experiência. Fontes: Agustin-Otegui.com. Inside The Sphere – Timeline (USA) “construction began at the Venetian Expo site in March 2018". Acesso em 10.mar.2026. AMERICAN CINEMATOGRAPHER. Sphere and the Big Sky Camera. Acesso em 21.mar.2026. AV MAGAZINE. Inside tech: the Sphere’s 18K camera sensor explained. Acesso em 21.março.2026. Dastan, M.; Dyminski Parente Ribeiro, E.; Bellut-Staeck, U.; Zhou, J.; Lehmann, C. Infrasound and Human Health: Mechanisms, Effects, and Applications. Appl. Sci. 2026, 16, 1553. https://doi.org/10.3390/app16031553 Acesso em 18.mar.2026. DESIGN TIMES. Sphere in Las Vegas: Redefining Entertainment with Innovative Design and Technology. Acesso em 21.mar.2026. HYPERVSN BLOG. How the Sphere Creates a Truly Immersive Experience. Acesso em 18.mar.2026. PETAPIXEL. Sphere Studios’ Big Sky Cinema Camera Features an Insane 18K Sensor. Acesso em 08.março.2026. SPHEREENTERTAINMENT. Sphere Entertainment Partners With Powersoft For Sphere Immersive Sound And Haptic Seating. Acesso em 18.mar.2026. SPHEREENTERTAINMENT. Sphere Studios And STMicroelectronics Reveal New Details On The World’s Largest Cinema Image Sensor. Acesso em 21.mar.2026. THE PRICER. How Much Did The Sphere Cost to Build? Acesso em 10.mar.2026 THESPHERE.COM. The Wizard of Oz at Sphere | Immersive Film with 4D Effects. Acesso em 18.mar.2026. WIKIPEDIA. Sphere. Acesso em 08.mar.2026. YM CINEMA MAGAZINE. The Big Sky Cinema Camera: Breaking Down the Patent Behind the Las Vegas Sphere’s Cutting-Edge Imagery. Acesso em 21.março.2026.
- Observatório ESO: Ciência e Tecnologia em Astronomia.
High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá A Astronomia é descrita freqüentemente como a ciência mais antiga, dado o fascínio que o universo sempre exerceu em pessoas de todas as idades e culturas. Atualmente a astronomia utiliza sofisticada tecnologia e é considerada uma das ciências mais modernas e dinâmicas. Uma das organizações que muito contribui para o avanço da Astronomia, é o ESO, Observatório Europeu do Sul, uma destacada organização intergovernamental de ciência e tecnologia em astronomia. Ajuda cientistas de todo o mundo a descobrir os segredos do Universo, o que, consequentemente, beneficia toda a sociedade. Fundado em 1962, com sede em Garching, na Alemanha e com observatórios no Chile, ESO é uma organização intergovernamental apoiada por 16 Estados Membros (Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Irlanda, Itália, Holanda, Polónia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia, Suíça e o Chile, país de acolhimento e parceiro estratégico. ESO desenvolve um ambicioso programa focalizado em design, construção e operação de potentes observatórios e promove e organiza cooperações em pesquisas astronômicas. Em seu site, ESO informa que conta com mais de 750 funcionários oriundos de cerca de 30 países e inúmeros colaboradores de todo o mundo. São mais de 22.000 usuários de cerca de 130 países diferentes, que tem acesso a serviços, tecnologia e dados. ESO opera três observatórios no Deserto de Atacama, no Chile: La Silla, Paranal e Chajnantor. OBSERVATÓRIO LA SILLA O La Silla, primeiro observatório ESO a entrar em operação no final da década de 1960, está situado na montanha de La Silla, a uma altitude de 2350 m, a 600 km do norte de Santiago do Chile. É equipado com vários telescópios ópticos. Os espelhos têm diâmetro de até 3.6 metros. Os principais instrumentos óticos do ESO em La Silla são um refletor de 3,6 m, inaugurado em 1976; o New Technology Telescope (NTT) de 3,5 m, inaugurado em 1989; um refletor de 2,2 m de propriedade conjunta do Max-Planck-Institut für Astronomie, inaugurado em 1984. O ESO Schmidt de 1 m, inaugurado em 1971, foi fechado em 1998, mas reabriu em 2009 e agora é operado pela Universidade de Yale. Os instrumentos em La Silla de propriedade de nações individuais incluem um refletor dinamarquês de 1,54 m inaugurado em 1979 e o telescópio Leonhard Euler de 1,2 m de propriedade do Observatório de Genebra, inaugurado em 2000. Credit: ESO. Directed by: Nico Bartmann.Editing: Nico Bartmann.Web and technical support: Mathias André and Raquel Yumi Shida.Written by: Laura Hiscott and Calum Turner.Music: John Stanford — The Edge (johnstanfordmusic.com).Footage and photos: ESO, G. Hüdepohl (atacamaphoto.com), L. Calçada, J. Pérez, Liam Young/Unknown Fields.Scientific consultant: Paola Amico and Mariya Lyubenova.Executive producer: Lars Lindberg Christensen. OBSERVATÓRIO CERRO PARANAL O observatório ESO em Cerro Paranal está situado em uma montanha na parte norte do deserto do Atacama, no Chile. Lá está instalado o VLT-Very Large Telescope, um dos telescópios ópticos mais avançados do mundo, composto por quatro Telescópios Principais com espelhos principais de 8,2 m de diâmetro e quatro Telescópios Auxiliares móveis de 1,8 m de diâmetro. Este é o trailer do the Very Large Telescope (VLT), situado no Paranal, no Chile Credit: ESO Footage and photos: ESO, C. Malin (christophmalin.com), Liam Young, B. Tafreshi (twanight.org), G. Hüdepohl (atacamaphoto.com), F. Kamphues, G. Lombardi (glphoto.it), S. Gillessen, F. Char, H. Zodet and Y. Beletsky (LCO). Music by Movetwo O HOTEL ESO CERRO PARANAL Sob o cume, a uma altura de cerca de 2.400 metros, encontra-se o Hotel ESO no Cerro Paranal. É o alojamento do Observatório do Paranal no Chile desde 2002. É usado principalmente para os cientistas e engenheiros do ESO que trabalham lá em um sistema de escala, que os abriga em estadias em que podem relaxar e descansar entre fases extenuantes de trabalho. O Hotel ESO no Cerro Paranal tem sido chamado de "pensão em Marte", porque os arredores do deserto são semelhantes a Marte e um "Oásis para astrônomos". Não é um hotel comercial, e o público não pode reservar quartos. Para o tempo relativamente curto de estadias de cientistas e engenheiros, sob condições climáticas extremas – sol intenso, secura extrema, altas velocidades do vento, grandes flutuações de temperatura e o perigo de terremotos – o hotel foi edificado em local longe da civilização. O exterior do hotel foi apresentado no filme de 007 de 2008, Quantum of Solace, no qual a estrutura foi retratada como um eco-hotel fictício na Bolívia. Uma miniatura do hotel foi construída pela equipe de efeitos visuais para as cenas em que o hotel, no filme, é destruído por um incêndio. ESO Paranal e o Hotel ESO Cerro Paranal foram set de filmagem de 007, "Quantum of Scolace" Credit: ESO Visual design and editing: Martin Kornmesser and Luis Calçada. Cinematography: Peter Rixner. Editing: Herbert Zodet. Web and technical support: Lars Holm Nielsen and Raquel Yumi Shida. Written by: Henri Boffin, Lee Pullen and Lars Lindberg Christensen. Host: Dr. J. Narration: Lee Pullen. Music: Paulo Raimundo; lcg//moulinex. Footage and photos: Sony Pictures, EON Productions Ltd., QUANTUM OF SOLACE / © 2008 Danjaq, United Artists, CPII., 007 TM and related James Bond Trademarks, TM Danjaq & ESO. Directed by: Lars Lindberg Christensen OBSERVATÓRIO CHAJNANTOR O Observatório Chajnantor é operado pelo Caltech - Instituto de Tecnologia da California em colaboração com a Universidade do Chile e a Universidade de Concepción e está localizado a uma altitude de 5080 metros (16700 pés) na Cordilheira dos Andes, no norte do Chile. O planalto alto e seco de Chajnantor é um dos melhores locais do mundo para astronomia milimétrica e submilimétrica. O primeiro instrumento de observatório, o Cosmic Background Imager (CBI) está alojado em uma cúpula retrátil que fornece alguma proteção contra chuva, neve e vento. Na maioria dos dias, o vento em Chajnantor atinge picos no final da tarde em cerca de 15 m/s (30 mph). Nessas condições, o frio é um problema grave, mas a cúpula fornece um espaço de trabalho abrigado onde é possível reparar e manter o CBI. A cúpula é uma estrutura de aço hemisférica coberta com tecido de poliéster, abrigada em uma parede de 2 m de altura e 10,5 m de diâmetro. O CBI e sua cúpula exigem placas de suporte de concreto, mas esta é a única obra de construção do local. Todas as outras instalações estão em contêineres de transporte padrão ISO colocados diretamente no solo. Essa abordagem modesta à infraestrutura do local reduz custos, reduz a carga de manutenção e tem um impacto bastante baixo no meio ambiente. As instalações do observatório incluem uma sala de controle, laboratório, oficina mecânica, usina, duas salas de trabalho/quartos e um banheiro – tudo dentro dos contêineres de transporte. Para neutralizar os efeitos da alta altitude, o ar nas áreas de trabalho e de vida é enriquecido com oxigênio (usando peneiras moleculares para separar o oxigênio do ar), e as pessoas que trabalham fora podem usar tanques de oxigênio portáteis com reguladores de demanda quando necessário para melhorar a eficiência e a segurança. A usina e os tanques de combustível estão localizados a cerca de 100 m a leste do CBI; o consumo médio de energia para o local é de cerca de 100 kW e a usina tem um par de geradores a diesel classificados para 150 kW a 5000 m. As instalações da base estão localizadas na Residencia Don Esteban, na histórica cidade oásis de San Pedro de Atacama, a uma altitude de 2500 m. Estes incluem quartos, cozinha, sala de conferências e sala de computadores. O observatório é parcialmente apoiado pela SAINT, Aliança Estratégica para a Implementação de Novas Tecnologias, um consórcio formado por doze instituições: the California Institute of Technology and the Jet Propulsion Laboratory, the University of Chicago, Columbia University, The Max Planck Institute for Radio Astronomy (Bonn), Oxford University, Princeton University, Stanford University, the University of Manchester, The University of Miami, The Rutherford Appleton Laboratory of the Science and Technology Facilities Council, The University of Oslo, and The High Energy Accelerator Research Organization (KEK). Este consórcio foi formado para estudos e pesquisas sobre problemas fundamentais da física que podem ser resolvidos por observações da radiação cósmica de fundo em micro-ondas e pesquisas sobre uma variedade de novos planos astrofísicos. Abaixo veja o trailer do ALMA, o maior projeto astronômico existente. Um telescópio de última geração que estuda a luz com comprimentos de onda de cerca de um milímetro, emitida por alguns dos objetos mais frios do Universo, o ALMA é uma cooperação do Observatório Europeu do Sul (ESO), juntamente com os seus parceiros internacionais. O local do ALMA é o planalto do Chajnantor, a 5000 m de altitude, no norte do Chile, um dos locais mais secos da Terra. Credit: ESO ALMA (ESO/NAOJ/NRAO), C. Malin (christophmalin.com), P. Horálek, Liam Young, B. Tafreshi (twanight.org), J.J. Tobin (University of Oklahoma/Leiden University), M. Kaufman, Theofanis N. Matsopoulos, H.H.Heyer, S. Argandoña and H. Zodet. Music by Movetwo Indiscutivelmente ESO possui estrutura tecnológica sofisticada e, com seus 61 anos de existência, uma curiosidade natural seria conhecer alguns de seus principais resultados científicos, o que será visto, a seguir. DEZ DESCOBERTAS ESPACIAIS DO OBSERVATÓRIO ESO, POR ELIZABETH HOWELL, SPACE.COM 1.OBSERVANDO O COSMOS: ACELERAÇÃO E EXPANSÃO Desde que o primeiro telescópio começou a funcionar em 1966, o ESO provocou diversas mudanças na forma como percebemos o Universo. Os astrónomos observaram a aceleração do Universo à medida que se expandia e aprenderam mais sobre a aparência do jovem Universo. Os telescópios do ESO também tiraram fotografias de planetas distantes e ajudaram a medir o peso de estrelas gigantescas. 2.PRIMEIRAS MEDIÇÕES PRECISAS DE PLUTÃO E CARONTE (1986) Ao observar a curva de luz de Plutão e sua lua Caronte durante eclipses com telescópios do ESO La Silla, os astrônomos conseguiram reduzir o tamanho dos dois objetos. Plutão, então considerado um planeta, tem um diâmetro de aproximadamente 1367 milhas (2200 quilômetros). Sua maior lua, Caronte, foi medida em cerca de 721 milhas (1160 quilômetros). 3.PIONEIRISMO EM ÓPTICA ADAPTATIVA (1989) O ESO foi um dos primeiros observatórios a testar a "óptica adaptativa", uma técnica usada para fazer correções para a turbulência da atmosfera terrestre. Um espelho telescópico, conectado a um computador, é ajustado automaticamente à medida que a atmosfera se flexiona. Isso permite que a luz chegue ao telescópio com maior precisão – o que significa que podemos ver mais longe no espaço. A óptica adaptativa é uma técnica padrão usada atualmente. 4.EXPANSÃO DO UNIVERSO ACELERANDO (1998) Ao estudar o brilho das explosões estelares, os pesquisadores descobriram que o universo não está apenas se expandindo, mas acelerando à medida que cresce. Telescópios do ESO e de outros observatórios, incluindo o Telescópio Espacial Hubble, determinaram isso através de medições de supernovas do Tipo Ia. Os principais descobridores receberam o Prêmio Nobel de Física de 2011. 5.CONFIRMANDO O PASSADO QUENTE DO UNIVERSO (2000) Os pesquisadores conseguiram obter a temperatura do eco do Big Bang – radiação cósmica de fundo de micro-ondas – de quando o universo tinha apenas 2,5 bilhões de anos. Um telescópio do ESO fez medições de espectro de um quasar, que é uma galáxia brilhante e distante alimentada por um enorme buraco negro. O brilho do quasar mostrou que o universo estava mais quente do que é agora. 6.OS ANOS MAIS AZUIS DO UNIVERSO (2003) A partir de observações com o Very Large Telescope do ESO, os astrónomos descobriram a cor do universo jovem, com 2,5 bilhões de anos, era muito mais azul do que é hoje porque estava cheio de estrelas jovens e azuis. Como as estrelas azuis emitem mais luz do que as estrelas antigas – e o universo tem tanta luz agora quanto no passado – as descobertas sugerem que havia menos estrelas nos primeiros anos do universo. 7.LIGANDO RAIOS GAMA COM SUPERNOVAS (2003) Depois que uma explosão de raios gama brilhou na constelação de Leo em 29 de março de 2003, telescópios australianos e japoneses detectaram uma fonte de luz brilhante no mesmo local em 90 minutos. Os telescópios do ESO captaram então o primeiro espectro do objeto. Eles descobriram que essa grande supernova ou "hipernova" estava a 2,65 bilhões de anos-luz de distância, e foram capazes de ligá-la à explosão de raios gama. 8.A MAIOR ESTRELA DE TODOS OS TEMPOS (2010) A maior estrela de todos os tempos, o R136a1 está distante 165.000 anos-luz da Terra e tem mais do dobro do tamanho que os cientistas pensavam que as estrelas poderiam alcançar. Essa magnífica descoberta foi possível por meio do Very Large Telescope do ESO e confirmado com dados de arquivo do Telescópio Espacial Hubble. 9.PRIMEIRO ESPECTRO DIRETO DE UM EXOPLANETA (2010) Os cientistas usaram o Very Large Telescope do ESO para detectar a composição química de um planeta a cerca de 130 anos-luz da Terra. Este planeta tem cerca de 10 vezes o tamanho de Júpiter, com uma temperatura de superfície de 1472 graus Fahrenheit (800 graus Celsius). Esta foi a primeira vez que o espectro foi observado a partir de observações diretas de um planeta. 10.PLANETA DO TAMANHO DA TERRA ENCONTRADO NO SISTEMA ESTELAR AO LADO (2012) Um planeta com aproximadamente a mesma massa da Terra foi descoberto perto de Alpha Centauri B, que faz parte de um sistema de três estrelas a apenas 4,3 anos-luz da Terra. Um telescópio do ESO em La Silla detectou o planeta medindo as oscilações da estrela. O planeta está fazendo com que Alpha Centauri B se mova para frente e para trás a 1,1 milhas (1,8 quilômetros) por hora, a mesma velocidade de um bebê engatinhando. O INOVADOR ELT O Extremely Large Telescope (ELT) do Observatório Europeu do Sul (ELT) é um revolucionário telescópio terrestre que terá um espelho principal de 39 metros e será o maior telescópio do mundo para luz visível e infravermelha: o maior olho do mundo no céu. A construção deste projeto tecnicamente complexo, iniciada há 9 anos, avança em um bom ritmo, com o ELT agora ultrapassando a marca de 50% concluído. O telescópio está localizado no topo do Cerro Armazones, no deserto do Atacama, no Chile, onde engenheiros e trabalhadores da construção civil estão atualmente montando a estrutura da cúpula do telescópio em um ritmo impressionante. Visivelmente mudando a cada dia, a estrutura de aço logo adquirirá a forma redonda familiar típica das cúpulas de telescópio. Conforme palavras do Diretor Geral do ESO, Xavier Barcons, "O ELT é o maior da próxima geração de telescópios ópticos e infravermelhos próximos baseados em terra e o que está mais avançado na sua construção. Atingir 50% de conclusão não é um feito pequeno, dados os desafios inerentes a projetos grandes e complexos, e isso só foi possível graças ao empenho de todos no ESO, ao apoio contínuo dos Estados-Membros do ESO e ao envolvimento dos nossos parceiros na indústria e nos consórcios de instrumentos. Estou extremamente orgulhoso de que o ELT tenha alcançado este marco." Vídeo ESO ELT Credit: ESO. Directed by: Martin Wallner Editing: Martin Wallner Web and technical support: Gurvan Bazin and Raquel Yumi Shida Written by: Martin Wallner Consultants: Bárbara Ferreira, Michele Cirasuolo Music: Jon Kennedy – You, You and You Footage and photos: ESO, G. Hüdepohl (atacamaphoto.com), L. Calcada, M. Kornmesser, A. Tsaouis, M. Wallner, H. Zodet, SCHOTT, APICAL Acknowledgements: R. Parra, G. Vecchia, CIMOLAI, SCHOTT Por Luiz Cincurá luiz.cincura@high-techsociety.com Observatório ESO: Ciência e Tecnologia em Astronomia Fontes: CALIFORNIA INSTITUTE OF TECHNOLOGY. Chajnantor Observatory. Disponível em Acesso em 25 dez.2023. CALIFORNIA INSTITUTE OF TECHNOLOGY. Chajnantor Observatory: Strategic Alliance for the Implementation of New Technologies (SAINT). Disponível em Acesso em 25 dez.2023. EUROPEAN SUTHERN OBSERVATORY. Observatórios La Silla, Chajnantor e Paranal. Disponível em Acesso em 25 dez.2023 HOWELL, Elizabeth. 10 Space Discoveries by the European Southern Observatory. Disponível em Acesso em 26 dez.2023. JORNAL FOLHA DE S. PAULO – 19 set.2010 – página A22 OXFORD REFERENCE. La Silla Observatory. Disponível em Acesso em 26 dez.2023. WIKIPÉDIA. ESO Hotel. Disponível em Acesso em 26 dez.2023.
- Dinamarca é reconhecida como país mais protegido contra a corrupção, no mundo, pelo sexto ano consecutivo.
High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá Em 30.janeiro.2024, a Transparência Internacional publicou o Índice de Percepção da Corrupção 2023 (IPC). O Índice classifica 180 países e territórios por seus níveis percebidos de corrupção no setor público em uma escala de zero (altamente corrupto) a 100 (muito justo), utilizando dados de 13 fontes externas, incluindo o Banco Mundial, Fórum Econômico Mundial, empresas privadas de risco e consultoria, think tanks e outros. As pontuações refletem exclusivamente as opiniões de especialistas e empresários. CORRUPTION PERCEPTIONS INDEX EXPLAINED | TRANSPARENCY INTERNATIONAL A Dinamarca, com 90 pontos, lidera o índice pelo sexto ano consecutivo, como o país de menor corrupção do mundo. Finlândia e Nova Zelândia a seguem de perto, com pontuações de 87 e 85, respetivamente. Devido ao bom funcionamento dos sistemas de justiça, esses países também estão entre os melhores pontuadores no Índice de Estado de Direito. Mas o que explica desempenho tão extraordinário e contínuo? O Prof. Gert Tingaard Svendsen, autor do livro Trust que enfatiza a confiança social, forneceu entrevista à Agência Brasil. De acordo com o Prof. Svendsen “o país começou a lutar contra a corrupção muito cedo, ainda durante o processo de construção do Estado dinamarquês. Em 1660, o rei Frederick III iniciou um processo de recrutamento de servidores públicos com base em seus méritos, e não por suas ligações com a aristocracia. Naquela época, o rei estabeleceu um canal para que as pessoas denunciassem diretamente a ele qualquer ato de abuso de poder”. Prof. Svendsen argumenta que há um amplo sentimento de “confiança” existente entre os cidadãos. Isso favorece ao desenvolvimento econômico, pois há maior cooperação, confiança nas instituições, menor burocracia e menor necessidade de investimentos em segurança pública. Ao longo dos séculos o país tem mantido essas práticas meritocráticas e, por outro lado, não é leniente com abusos de poder, o que consolidou a base de princípios e valores contemporâneos da Dinamarca. A Dinamarca é um exemplo anti-corrupção no mundo, mas os desafios, em muitos países é ainda enorme, para que possam evoluir para melhores indicadores. Para a Transparência Internacional, o Índice de Percepção da Corrupção 2023 mostra que a maioria dos países fez pouco ou nenhum progresso no combate à corrupção no setor público. A média global do IPC permanece inalterada em 43 pontos pelo décimo segundo ano consecutivo, com mais de dois terços dos países pontuando abaixo de 50, o que indica sérios problemas de corrupção. De acordo com o Índice do Estado de Direito, o mundo está experimentando um declínio no funcionamento dos sistemas de justiça. Conforme pontua a Transparência Internacional, "os países com as pontuações mais baixas nesse índice também estão pontuando muito baixo no IPC, destacando uma conexão clara entre acesso à justiça e corrupção. Tanto os regimes autoritários quanto os líderes democráticos que minam a justiça contribuem para aumentar a impunidade da corrupção e, em alguns casos, até a incentivam, removendo consequências para os malfeitores." A Transparência Internacional informa que segue liderando a luta global contra a corrupção. Nos anos que antecedem 2030, dedica-se a liderar a luta global contra a corrupção. "Holding Power to Account" é uma estratégia global dos anos 2021-2030, da Transparência Internacional contra a Corrupção. De forma integrada com capítulos nacionais independentes e afiliados em mais de 100 países e pelo Secretariado internacional – a Transparência Internacional pretende contribuir para um futuro mais positivo; um mundo em que o poder seja responsabilizado para atuar sem desvios, para que os países possam realizar muito mais em prol do bem comum. A GLOBAL STRATEGY AGAINST CORRUPTION 2021-2030 (ENGLISH) | TRANSPARENCY INTERNATIONAL Por Luiz Cincurá luiz.cincura@high-techsociety.com Fontes: TRANSPARENCY INTERNATIONAL. 2023 Corruption Perceptions Index: Weakening justice systems leave corruption unchecked. Disponível em: Acesso em 09.fev.2024. TRANSPARENCY INTERNATIONAL. 2023 Corruption Perceptions Index. Disponível em: Acesso em 09.fev.2024. TERRA NETWORKS BRASIL. Dinamarca é considerada o país menos corrupto pela 3ª vez. Disponível em: Acesso em 09.fev.2024. WJP RULE OF LAW INDEX. The Global Rule of Law Recession Continues. Disponível em: Acesso em 15.fev.2024.
- Destaques do PISA 2022
High-TechSociety.com | Por Luiz Cincurá O PISA, Programa Internacional para a Avaliação de Alunos é uma avaliação trienal, sistemática, prospectiva e comparativa de nível internacional, focado nas áreas de Matemática, Ciências e Língua, para alunos entre 15 anos e três meses de idade até 16 anos e dois meses de idade. A cada ciclo enfatiza uma das três áreas citadas, sendo que a área destacada de cada ciclo absorve cerca de 60% das questões das provas e as demais áreas, 20% para cada uma delas. A área de maior peso nas avaliações do PISA 2022 foi matemática. O PISA 2022, estabeleceu uma inovação na avaliação, o teste do pensamento criativo. Ele está centrado nas competências que os estudantes do século XXI precisam, à medida que as organizações e sociedades em todo o mundo dependem da inovação e da criação de conhecimento para enfrentar os desafios emergentes. O teste do pensamento criativo de PISA examinou as capacidades dos alunos para gerar ideias diversas e originais e para avaliar e melhorar ideias, em vários contextos ou "domínios". A avaliação incluiu quatro domínios: expressão escrita, expressão visual, resolução de problemas sociais e resolução de problemas científicos. Em cada um desses domínios, os alunos se envolveram com tarefas abertas que não possuíam uma única resposta correta. Eles foram solicitados a fornecer respostas múltiplas e distintas, ou a gerar uma resposta que não fosse convencional. Essas respostas poderiam assumir a forma de uma solução para um problema, um texto criativo ou um artefato visual. Estimular o pensamento criativo fortalece a capacidade de adaptação em uma realidade cada vez mais complexa e dinâmica em que o conhecimento e a capacidade de inovação podem ser decisivos para encontrar soluções para um mundo em constante e rápida mudança. A avaliação é promovida pela OECD - Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico. Trata-se de uma entidade intergovernamental que visa promover o desenvolvimento econômico e social de seus membros, os países industrializados. Ressalta-se, contudo, que a participação no PISA não está restrita aos membros da OECD, pois inclui também países convidados. De acordo com o Relatório “Resultados PISA 2022 - O Estado da Aprendizagem e Equidade na Educação", divulgado em dezembro/2023 pela OECD, , o primeiro volume de relatório de um total de cinco volumes de relatórios apresentados, em 2022 foram avaliados 690 mil estudantes, representando 29 milhões de estudantes em todo o mundo, de 81 países e economias. O PISA é o primeiro estudo em grande escala a coletar dados sobre o desempenho, o bem-estar e a equidade dos alunos antes e após as paralisações e adversidades provocadas pela pandemia da COVID-19. Segundo o relatório, o PISA 2022 é muito mais do que excelência educacional. Trata-se também de equidade na educação, para que todos os alunos, independentemente da origem, possam ter uma oportunidade justa de atingir todo o seu potencial. O PISA é uma poderosa fonte comparativa de nível internacional na área educacional, que muito pode colaborar para fortalecimento de políticas públicas educacionais inclusivas para países compromissados em desenvolver educação de boa qualidade, passo fundamental para a transformação social que permita maior prosperidade, inclusão laboral e econômica, pois, formação educação básica mais mais bem sedimentada é um passo destacado para geração de futuros profissionais mais bem preparados para servir à sociedade em diversas áreas do conhecimento. O relatório concluiu que, apesar das circunstâncias desafiadoras, 31 países e economias conseguiram pelo menos manter o seu desempenho em matemática desde o PISA 2018. Entre estes, Austrália, Japão, Coreia, Singapura e Suíça mantiveram ou aumentaram ainda mais os já elevados níveis de desempenho de seus estudantes, com pontuações variando de 487 a 575 pontos (média da OECD 472). Esses países apresentaram aspectos convergentes, como o período de fechamento mais curto de escolas, menos obstáculos ao aprendizado remoto e continuidade de suporte aos alunos, por parte de professores e de pais. Muitos países também fizeram progressos significativos no sentido do ensino secundário universal, fundamental para permitir a igualdade de oportunidade e plena participação na economia. Entre eles, Camboja, Colômbia, Costa Rica, Indonésia, Marrocos, Paraguai e Roménia expandiram rapidamente a educação para populações anteriormente marginalizadas ao longo da década passada. Dez países e economias registaram uma grande percentagem de jovens de 15 anos com confirmação de proficiência básica em matemática, leitura e ciência com educação altamente equitativa e que proporcionou elevados níveis de justiça socioeconómica: Canadá, Dinamarca, Finlândia, Hong Kong, Irlanda, Japão, Coreia, Letónia, Macau e Reino Unido. O relatório da OECD também aponta que, de países da OECD, cerca de três quartos dos estudantes relataram estar confiante no uso de várias tecnologias, incluindo sistemas de gestão de aprendizagem, plataformas de aprendizagem escolar e vídeo-programas de comunicação. No entanto, a tecnologia utilizada para lazer e não para instrução, como a tecnologia de telefones móveis, muitas vezes parece estar associado aos piores resultados. Alunos que relataram que se distraem com outros alunos que usam dispositivos digitais em pelo menos algumas aulas de matemática, obtiveram 15 pontos a menos que estudantes que relataram que isso nunca ou quase nunca acontece. O apoio dos professores é particularmente importante em tempos de instabilidade, nomeadamente através da prestação de serviços adicionais, apoio pedagógico e motivacional aos alunos, segundo o PISA 2022. O trabalho sistemático do PISA, ao longo de suas aplicações trienais, reforçam a resiliência dos sistemas educativos no sentido de atuarem na perspectiva de crescimento da igualdade de oportunidades, o que certamente proporcionará maior capacitação e empoderamento dos jovens para o sucesso. Países engajados e com vontade política de reservar à educação, o espaço e a importância que lhe cabe, certamente estão conscientes e seguros de que este é o caminho para geração e longevidade de uma perspectiva de desenvolvimento econômico e social. Por Luiz Cincurá luiz.cincura@high-techsociety.com Fontes: CREATIVITYEXCHANGE. The PISA 2022 Creative Thinking Test. Bill Lucas explores the significance of the first global assessment of creative thinking. Disponível em Acesso em 22.fev.2024. FACTSMAPS. PISA 2022 Worldwide Ranking. Disponível em Acesso em 22.fev.2024. OECD (2023), PISA 2022 Results (Volume I): The State of Learning and Equity in Education, PISA, OECD Publishing, Paris, Disponível em Acesso em 19.fev.2024. WAISELFISZ, Julio Jacob. O ensino das Ciências no Brasil e o PISA. Sangari do Brasil. 1ª.Ed., 2009.











