Das missões Apollo até Artemis
- 20 de fev.
- 8 min de leitura
Atualizado: 22 de fev.
Décadas se passaram desde que o ser humano deixou suas primeiras pegadas na superfície da Lua - um feito da missão Apollo 11, da NASA¹, que redefiniu os limites da ciência, da tecnologia e da própria imaginação humana e que merece ser revisitado.
Esse marco extraordinário continua a inspirar gerações e ganha novo significado agora, quando o Programa Artemis da NASA, prepara os próximos passos do retorno humano ao espaço.
A Lua, que foi o ponto culminante das missões Apollo, deixa de ser destino final para se tornar, futuramente, uma plataforma estratégica de preparação e aprendizado - o primeiro degrau de uma nova era que projeta a humanidade rumo a Marte.
Voltemos, portanto, à missão Apollo 11, para melhor entendimento de toda essa trajetória evolutiva de descobertas espaciais, das missões Apollo até Artemis.
Apollo 11: O registro histórico do primeiro ser humano pisando no solo lunar
Em 20 de julho de 1969, a espaçonave da missão Apollo 11, da NASA, entrou em órbita da Lua. O veículo era composto por três partes principais: o Módulo de Comando, chamado Columbia, que funcionava como cabine de controle e cápsula de retorno à Terra; o Módulo de Serviço, responsável por energia e propulsão; e o Módulo Lunar, batizado de Eagle, um veículo com motor próprio projetado para pousar na superfície lunar. Após estabelecer a órbita, o Eagle desacoplou-se do conjunto principal da espaçonave e iniciou sua descida controlada até chegar ao solo da Lua.
Concluída a visitação e observação direta do solo lunar, por um período de 2h31min os astronautas retornaram à Eagle. Lá permaneceram por 19h05min para organizar as amostras lunares, alimentação, descanso e preparar o veículo para decolagem. Todo esse processo teve a duração de 21h36min.
Na decolagem, apenas a parte superior do módulo lunar Eagle — chamada estágio de subida — decolou da superfície para reencontrar o Módulo de Comando Columbia em órbita. A base do Eagle, com suas pernas de pouso e motor de freio para pousar na lua, chamada de estágio de descida, permaneceu na Lua. Depois que os astronautas retornaram ao Columbia, o estágio de subida foi descartado na órbita lunar. Somente o Módulo de Comando onde estavam os astronautas, regressou à Terra e pousou de paraquedas no Oceano Pacífico.
Para realizar essa façanha memorável, a Apollo 11 percorreu cerca de 384.000 km com velocidade média aproximada de 5.058 Km/h - do planeta Terra até a órbita da lua - uma viagem de cerca de 3 dias e 4 horas.
A tripulação da Apollo 11 era composta de três astronautas: Neil Armstrong, Buzz Aldrin e Michael Collins. Armstrong e Aldrin desceram à superfície da lua no módulo lunar, enquanto Collins permaneceu no módulo de comando Columbia, orbitando a Lua.

Retornando da lua, módulo lunar Eagle se aproxima do módulo de comando Columbia, em órbita lunar, para acoplamento. No alto, ao fundo, vista do planeta Terra. Image Credit: NASA/Michael Collins.
O feito histórico foi transmitido ao vivo para cerca de 49 países, alcançando aproximadamente 600 milhões de pessoas - um dos maiores eventos midiáticos já registrados até então.
Ao descer do módulo lunar Eagle, o astronauta Neil Armstrong, o primeiro a pisar na lua, pronunciou a frase que atravessaria gerações: “That’s one small step for a man, one giant leap for mankind.” ("Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigante para a humanidade"). A frase de Armstrong sintetizou a dimensão histórica da conquista. Não era apenas um pouso. Era a prova de que a humanidade era capaz de ultrapassar seus próprios limites físicos e tecnológicos. Isso em uma época em que os computadores eram menos potentes que uma calculadora científica atual e sistemas de navegação eram baseados em cálculos manuais e instrumentação analógica.
Devido a grande dimensão midiática concedida - pelo ineditismo do extraordinário acontecimento - muitos que sequer haviam nascido à época, hoje ainda acreditam que esse feito ocorreu apenas uma única vez. No entanto, embora a Apollo 11 tenha sido a primeira, o pouso lunar foi repetido em outras cinco missões do programa Apollo da NASA, totalizando seis ocasiões diferentes em que astronautas caminharam na Lua, entre 1969 e 1972, conforme podemos ver no quadro abaixo:
Missão | Astronautas que pisaram na Lua | Data do pouso na lua | Data de retorno à Terra |
Apollo 11 | 2 | 20 julho 1969 | 24 julho 1969 |
Apollo 12 | 2 | 19 novembro 1969 | 24 novembro 1969 |
Apollo 14 | 2 | 5 fevereiro 1971 | 9 fevereiro 1971 |
Apollo 15 | 2 | 30 julho 1971 | 7 agosto 1971 |
Apollo 16 | 2 | 21 abril 1972 | 27 abril 1972 |
Apollo 17 | 2 | 11 dezembro 1972 | 19 dezembro 1972 |
Doze homens caminharam sobre o solo lunar nesse curto intervalo de tempo. Desde então, porém, nenhum ser humano voltou à superfície da Lua - um hiato de mais de meio século que agora começa a ser desafiado, por uma nova geração de missões e com novos propósitos.
As missões Artemis
Quase cinco décadas depois, o Programa Artemis foi criado para retomar e expandir a presença humana além da órbita baixa² da Terra. Contudo, a abordagem atual é diferente da corrida espacial dos anos 1960 - a NASA está construindo um programa sustentado, passo a passo, com tecnologia moderna e parcerias comerciais e internacionais.

Missões Artemis/NASA. Credit: SATNow
Artemis I: teste sem tripulação (2022)
A missão Artemis I foi lançada em 16 de novembro de 2022 usando o novo foguete Space Launch System (SLS) e a cápsula Orion. Sem tripulantes, essa missão testou sistemas críticos: lançamento, trajetória para a Lua, órbita lunar e retorno à Terra, percorrendo mais de 2,3 milhões de quilômetros.
Compilação de vídeos da NASA, lançamento da Artemis I, apresentada por Digital Astronaut
Episode Credits: Directed and Edited by: Jared Belcher Video and Audio provided by NASA Episode Music: “Across the Sea” Composed by Blake Ewing, Performed by Brooke Mitchels.
Artemis II: missão tripulada em órbita lunar (2026)
A próxima missão, Artemis II está planejada para ter o foguete lançado não antes de 06 de março de 2026, partindo do Kennedy Space Center, Flórida (EUA). Será um voo de cerca de 10 dias com quatro astronautas a bordo da Orion, indo além da órbita terrestre e descrevendo um flyby ao redor da Lua (os astronautas irão circundar a Lua e retornar, sem pousar) antes de voltar à Terra.
O objetivo não é pousar na Lua, mas testar sistemas de suporte à vida, comunicações, navegação e operação em ambiente profundo, com tripulação, o que é fundamental para missões posteriores. Isso prepara o terreno para o próximo passo do programa e reduz riscos antes de uma tentativa de pouso.
A Artemis II deverá levar cerca de quatro dias para alcançar a Lua e mais quatro dias para realizar o trajeto de volta à Terra. Nesse período, os astronautas seguirão verificando e analisando o desempenho dos sistemas da espaçonave, além de treinar protocolos e simulações de emergências. Ao mesmo tempo, seus organismos serão monitorados para ampliar o conhecimento sobre os efeitos que as viagens espaciais exercem no corpo humano.
Artemis II à Lua: Do lançamento ao pouso na água (Animação da missão da NASA). Credit: NASA.
Artemis III: pouso lunar (previsto para 2027–2028)
As missões Artemis 1 (não tripulada) e Artemis 2 (tripulada, até a órbita lunar) são voos de testes para um novo capítulo da exploração humana no Espaço. A Artemis III está planejada para ser a primeira missão tripulada a pousar na Lua desde Apollo 17 (1972), em 2027 ou 2028. A data pode variar conforme testes e desenvolvimento do módulo de descida lunar. Esta missão usará uma combinação do foguete SLS, da Orion e de um sistema de pouso lunar (Human Landing System), que embarcará os astronautas na superfície lunar.
O conjunto de missões Artemis (2022-2028) visa ir além das conquistas do Programa Apollo (1969-1972): não se trata apenas de chegar à Lua, mas de ter uma presença mais constante por lá, de acordo com Lori Glaze, administradora associada interina da Diretoria de Missões de Desenvolvimento de Sistemas de Exploração da Nasa:
“Diferentemente do Apollo, desta vez, quando formos à Lua, queremos ficar. Queremos ter uma presença sustentável na Lua. Queremos poder voltar várias vezes ao longo dos anos, para realmente aprender a viver e trabalhar nesse ambiente que está um pouco mais distante da Terra."
Segundo Krishna (2005), em matéria publicada na National Geografic, entender o impacto das viagens espaciais nos astronautas da Artemis será fundamental para uma futura missão à Marte.
A cápsula Orion, por si só, já representa um desafio, pois oferece apenas 9,34 m³ de espaço habitável, para quatro astronautas viverem, trabalharem e dormirem por quase dez dias, o que faz do confinamento um objeto de estudo.

Cabine da Orion. Credit: NASA
Krishna (2005) relata que, segundo Steven Platts, cientista-chefe do Programa de Pesquisa Humana, há três experimentos a bordo, todos com participação voluntária da tripulação. Um deles avalia bem-estar psicológico e padrões de sono em ambiente isolado — dados essenciais, já que a Artemis II será a primeira missão tripulada além da órbita terrestre desde 1972.
Outros dois estudos analisam os efeitos fisiológicos do espaço, segundo Krishna (2005). Serão coletadas amostras de sangue e saliva antes e depois da missão para examinar biomarcadores e hormônios. Durante o voo, os astronautas recolherão saliva em papel absorvente especial, permitindo comparação posterior com as amostras pré e pós-missão.
A tripulação também fará um teste de obstáculos antes e depois do voo para medir impactos da microgravidade no equilíbrio, coordenação e estabilidade. Será a primeira vez que esse experimento envolverá astronautas que viajaram além da órbita da Terra.
A Lua não é o destino final - é o ponto de partida. O programa Artemis foi concebido para estabelecer uma presença humana sustentável no entorno lunar e, a partir daí, preparar o próximo grande salto: levar astronautas à Marte, como confirma Bill Nelson, administrador da NASA:
“Com Artemis, vamos explorar a Lua para descoberta científica, avanço tecnológico e aprender a viver e trabalhar em outro mundo enquanto nos preparamos para missões humanas a Marte.”
A Lua, portanto, continuará sendo estudada e utilizada como base estratégica para desenvolver as capacidades necessárias a um desafio ainda mais audacioso: a chegada humana a Marte — em um futuro talvez não tão distante.
Fundador e Editor: Luiz Cincurá
Notas:
¹ Criada em 1958, sediada em Washington-DC e com dez centros de campo nos Estados Unidos, a National Aeronautics and Space Administration (NASA) é uma agência independente do governo federal, responsável pelo programa espacial civil dos Estados Unidos e pela pesquisa em aeronáutica e exploração espacial.
² A órbita baixa da Terra (em inglês, Low Earth Orbit – LEO) é a região do espaço situada aproximadamente entre 160 km e 2.000 km de altitude acima da superfície terrestre. É a faixa orbital mais próxima do planeta e a mais utilizada para satélites de observação da Terra, satélites de comunicação, missões tripuladas e estações espaciais. Por exemplo, a International Space Station (ISS) orbita a cerca de 400 km de altitude, dentro da órbita baixa.
Fontes:
CBS NEWS. Apollo 11 Broadcast Archive. Acesso em: 17.fev.2026.
KRISHNA, Swapna. NATIONAL GEOGRAFIC. The farthest journey in human history is about to begin. 2025. Acesso em 19.fev.2026.
NASA. Apollo Mission Overview e Apollo History. Acesso em: 17.fev.2026.
NASA Artemis: Mission, Objectives, and Sequence of Phases. Acesso em 19.fev.2026.
NATIONAL GEOGRAPHIC. Historical Coverage & Analysis. Acesso em: 17.fev.2026.
NATIONAL GEOGRAFIC. The farthest journey in human history is about to begin. Acesso em 19.fev.2026.
SMITHSONIAN INSTITUTION NATIONAL AIR AND SPACE MUSEUM. Apollo Program Overview. Acesso em: 17.fev.2026
THE NEW YORK TIMES. Historical archive. Acesso em: 17.fev.2026
WIKIPEDIA. Artemis II details: launch, crew, duration and objectives. Acesso em 19.fev.2026.
WIKIPEDIA. NASA. Acesso em 21.fev.2026



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